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Pra que farol? Farol pra quê?

Andar de motocicleta é tão maravilhoso que muitas definições são feitas, porém nenhuma delas ainda conseguiu definir na sua totalidade essa sensação. Frustação essa com a qual concordo tendo vista sua complexidade. A título de exemplo vou citar uma passagem ocorrida na Bahia a caminho de Nova Conquista. E a coisa aconteceu assim:

Após termos eu e o garupa saído do Rio de Janeiro e já estarmos na fronteira de Minas Gerais, antes de entrarmos na Bahia, por desconhecermos a localidade e desejarmos alcançar a cidade de Nova Conquista ainda naquela noite, paramos junto a um grupo de moradores do local e perguntamos qual a distância dali até Nova Conquista e como era o caminho.

Deram uma rápida descrição mas foram mais enfáticos em dizer que não fôssemos àquela hora porque já estava escuro e à noite a estrada se tornava mais perigosa por haver bandidos lá pela Serra roubando caminhoneiros que, andando devagar por causa das subidas em estrada de terra, os ladrões ficavam de tocaia para roubá-los

Escutamos atenciosamente, agradecemos as informações e saímos.

Como existe o ditado “seguro morreu de velho”, tirei finalmente da maleta a pistola calibre 22 que havia levado e entreguei-a ao Fernando, recomendando: Vá com ela engatilhada na mão, pronta para disparar, mas sempre apontada para baixo. Qualquer perigo que surja, aí sim, levante mire e atire! Atire mesmo! E fomos embora.

Cabe fazer uma lembrança aqui, dizendo que na época não havia tanta restrição quanto ao uso de armas. Se compararmos com os dias atuais, naquela época os bandidos só haviam cursado o Jardim de Infância do crime. Hojé além de diplomados ainda fazem pós graduação.

Então, continuando, depois de tudo resolvido partimos imediatamente tendo em vista que nossa intenção era atravessar a fronteira com a Bahia e chegar logo à Nova Conquista, que já estava bem próxima.

Nesse percurso também enfrentamos muitos mosquitos, mas desta vez protegemos o rosto passando o cachecol sobre o nariz como se fosse máscara. Na época capacete não existia.

Viajamos à noite sem luz para iluminar nosso caminho porque, estando o dínamo ainda enguiçado, a bateria não tinha mais carga. E por não ter encontrado pela estrada quem o consertasse resolvi deixá-lo assim mesmo.

O céu... estava cravejado de estrelas. O luar... que maravilha! O chão claro, de tão iluminado parecia um espelho e com facilidade víamos grande parte da estrada. A claridade da noite estava tão intensa, que até os vaga-lumes devem ter ficado envergonhados em acender seus pisca-piscas pelo fato das suas luzinhas ficarem esmaecidas sob aquele forte luar. E com essa maravilha à nossa frente, pra que farol? Farol pra que? Perder essa natureza noturna no interior do Brasil, isenta de qualquer iluminação artificial, trânsito, poluição? Isso é místico, é raro... É sensacional!

O local por onde circulávamos naquele momento era muito alto e o frio era tanto, que todos tremíamos convulsivamente: Eu, o Fernando e até a Norton, que por sua vez estremecia devido ao seu motor.

O céu, feericamente iluminado, parecia estar pouco acima das nossas cabeças dando-nos a impressão de que, se levantássemos os braços tocaríamos as estrelas.

Ah... uma explicação sobre a necessidade da bateria: Naquela época a bateria servia somente para utilizarmos faróis, lanternas e buzina. Não existia a “partida elétrica”, sinaleiras, nem outras parafernálias. Para darmos partida no motor (ignição) acionávamos o quique, que ativava o magneto, que por sua vez gerava energia fazendo ocorrer a ignição e o funcionamento do motor. Simples, não?

Então, tranqüilos e sem qualquer problema com a estrada pela falta de farol ou com pseudos bandidos, entramos na cidade de Nova Conquista às 20:00h do dia 18 de fevereiro de 1960.

Tratei logo de apanhar a arma que estava com o Fernando antes que ele fizesse alguma bobagem com ela e guardei-a de novo na maleta.

Ah... sim, tendo falando na arma, lembrei-me que chegará um momento onde falarei novamente sobre ela e garanto que a notícia será bem inusitada.

João Cruz
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