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O Pequeno... mas Grande Filósofo

Fato interessante aconteceu comigo e possivelmente terá acontecido com outros motociclistas. Mas como dizem que se dois fazem a mesma coisa não é a mesma coisa, então, se a coisa não tiver acontecido da mesma forma, poderá ter acontecido de maneira parecida.

Assim sendo, contarei meu caso e vejamos se a mesma coisa é a mesma coisa. Ou não...

Num belo dia de domingo e na época dos famosos e saudosos Anos Dourados, peguei minha AJS 500cc 1 cilindro e fui apanhar minha ‘deusa’ Terezinha para levá-la à casa de um amigo em Duque de Caxias-RJ para almoçarmos e na mesma oportunidade ela conheceria a família desse amigo.

Chegamos lá ainda pela manhã, houve as apresentações de praxe, conversamos, bebemos cervejas, inclusive a minha ‘deusa’, atitude que estranhei pelo fato dela não ter hábito de beber. Mas em se tratando de um dia especial, estarmos junto com o amigo, a mulher e os dois filhos dele, não liguei para o fato.

Após jogarmos bastante conversa fora e já estando o almoço pronto, tratamos de almoçar.

Fim da tarde, dia aprazível, resolvemos dar uma saída e fomos ao centro da cidade, a pé, para que a Terezinha a conhecesse. Após alguns lugares que visitamos, inclusive a conhecida “fortaleza” que era a casa do ex-deputado Tenório Cavalcante (o folcórico homem da capa preta), paramos em um bar para bebermos algo, tendo em vista que o dia estava quente. Os adultos beberam cerveja, e as crianças refrigerantes.

A Terezinha, que já não estava no seu estado normal, pegou um copo e nele colocou cerveja. Avisei-a para que não continuasse bebendo porque via-se já não estar totalmente sóbria por não ter o hábito de beber. Deu de ombros e bebeu. Aborrecido com aquilo, chamei todos para irmos embora.

Fomos com o amigo e sua família até a casa dele, pegamos a moto e voltamos para o apartamento dela no Rio de janeiro.

Foi daí em diante que a coisa começou a ficar feia. Nós dois (piloto e garupa), seguíamos calados e aborrecidos. Eu, devido à sua teimosia. E ela, por ter sido impedida de beber e também por não estar completamente lúcida.

Já era noite e saímos de Caxias por uma pequena estrada escura e de terra que ultrapassava a divisa de Duque de Caxias com o Rio de Janeiro e dava acesso a uma via principal, no caso, a Av. Brasil.

Devido à teimosia dela e a mudez entre nós, querendo pregar-lhe um susto disse-lhe que se não queria falar, que saltasse e fosse a pé e parei imediatamente a moto na beira da estradinha. Ela, sem nada dizer, saiu para a escuridão. Andei um pouco com a moto achando que ela pediria para parar, mas nada. Manteve-se parada no mesmo lugar onde saltou e eu só via o seu vulto em razão da escuridão.

Não sendo admissível que ela ficasse ali sozinha sem dinheiro num lugar escuro, ermo e desconhecido àquela hora da noite, voltei com a moto e parei próximo onde ela estava.

Nem se mexeu! Então saltei e chamei-a para que sentasse no banco, coisa que nem ligou. Então, com a intenção de trazê-la para a moto, peguei-a pelo braço e eis que de repente ela desaparece da minha frente, dá um grito e sou por ela puxado para baixo.

Aconteceu que, ao puxá-la, apenas um passo que deu foi o suficiente para que caísse num vão aberto onde passava um pequeno valão. Valão esse que não vimos devido à escuridão local e a tensão daquele momento. Nossa sorte foi eu ter caído no chão e assim conseguir apoio para poder, segurando que estava seu braço, ampará-la e puxá-la para cima.

Refeito do susto, puxei e coloquei-a a salvo na estradinha.

Foi aí então que a coisa piorou ainda mais! Se antes falava que não queria ir comigo, agora é que não iria de forma nenhuma.

No calor desses acontecimentos eis que passa um ônibus em direção ao centro de Duque de Caxias e o motorista notando haver algo estranho acontecendo, diminuiu a velocidade. Dessa forma ele e mais um ou dois passageiros puderam ver-nos ali no vai não vai.

Atrapalhado com a teimosia dela e procurando uma solução para o caso ficamos dialogando, quer dizer, eu falando e ela retrucando.

Passado algum tempo e vislumbrando atrás dela um vulto vindo em nossa direção, fiquei atento e vi tratar-se de uma pessoa de cor negra, de baixa estatura, bem magro, aparentando cerca de 40 anos de idade, com quepe e uniforme. Era um guarda municipal de Duque de Caxias, que possivelmente estava ali foi por ter sido acionado pelo motorista do ônibus.

Chegou, cumprimentou, apresentou-se educadamente e perguntou o que estava acontecendo. Expliquei o desentendimento e as minhas tentativas para colocar a Terezinha de volta na moto a fim de levá-la de volta para sua casa. Nesse mesmo momento em que eu falava ela diz em alto e bom som: “Com ele eu não vou!

O guarda, após ouvir a minha explicação e a afirmação dela, diz: “Se ela não quer ir com o senhor, deve ter uma boa razão para isso. Então vamos fazer o seguinte. Como não posso deixá-la sozinha, à noite e neste local, logo adiante no bairro de Vigário Geral tem uma delegacia policial onde ela poderá ficar até amanhã”.

Beleza! Se não era o melhor, pelo menos aliviaria aquela delicadíssima situação, pensei.

O guarda explicou-lhe a situação e ela então concordou.

Em seguida ele vai até uma bicicleta que havia deixado no chão e diz que iria nos acompanhando e pediu que eu fosse devagar.

Chegando à porta da delegacia, antes de entrarmos, o guarda começa a falar do seu trabalho, das várias situações enfrentadas com pessoas de todo tipo, inclusive com bandidos e foi por aí afora desfiando um rosário de situações criminosas. Escutando calado o que ele dizia, achava ser aquilo um prenúncio do que realmente ele queria dizer mais à frente.

Então, continuando, diz que por experiência profissinal adquirida nos seus muitos anos de trabalho, considerava ser muito desagradável e até perigoso, uma moça tão bonita e educada ter de passar a noite numa delegacia onde estariam bandidos, bêbados, prostitutas e também alguns elementos de alta periculosidade. E o pior é que ele nem poderia ficar porque teria de voltar ao seu Posto em Duque de Caxias. E no final declarou: “Mas se era isso o que ela queria, ele nada poderia fazer em contrário.”

Mal terminou de falar, volta-se e pergunta para a Terezinha: “A moça quer realmente ficar aqui na delegacia, ou prefere ir para casa?” Por demorar em responder, ficamos os dois (eu e o guarda) na expectativa da resposta, até que finalmente ela responde: “Está bem! Eu vou voltar para casa com ele!”

Isto posto, o guarda, sorrindo, se despede e desaparece na noite, da mesma forma como apareceu, vestido no seu já desgastado uniforme, pedalando uma raquítica e velha bicicleta.

Nesse exato momento tive uma reflexão:

Como é possível um simples guarda municipal, de uma cidade pequena, ter a sutil habilidade dos grandes diplomatas? Creio que até um erudito psicólogo ou até mesmo um sábio, não seria tão feliz nem teria tanta habilidade para fazer tanto em tão pouco tempo e com tanta simplicidade. Mas como diariamente nos deparamos com coisas muito estranhas e incríveis em nossas vidas, parei de conjeturar e segui viagem antes que a Terezinha desistisse de ir para casa e voltasse tudo à estaca zero.

Não demorou muito alcancei a Av. Brasil e em breve já chegaria ao apartamento dela. Eis que de repente começo a sentir um aperto maior da Terezinha, tal como se fosse um abraço apertado, beijos na nuca e outras insinuações, o que me fez chegar o mais rápido possível no seu apartamento.

E posso garantir que a seguir foi uma noite daquelas!!!

Nota: O guarda, infelizmente, nunca mais o vi após esse acontecimento. Mas tenho certeza que, dotado de sua inata diplomacia e sutil habilidade no trato com as pessoas, um dia conseguiu seu merecido “lugar ao sol”.

E antes que me esqueça, meus reiterados agradecimentos!

João Cruz
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