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Motociclistas invencíveis - Fragmentos da segunda edição 2

A Motocicleta

Era uma motocicleta inglesa de 500cc, dois cilindros, ano 1956. Uma verdadeira "deusa". Há porém um importante detalhe a ser destacado, que é o seguinte:

Ao adquirir essa nova moto, logo de início passei a admirá-la por sentir sua passiva obediência aos meus comandos. E tão especial se tornou, que nos integramos completamente passando a ser um parte do outro.

Deu-me alguns sustos e tombos como toda motocicleta que se preza, é verdade - quem nunca levou um tombo? - Mas tudo sem gravidade. Talvez fosse até proposital por parte dela dar-me esses sustos quando me excedia, possivelmente na tentativa de mostrar-me a necessidade da cautela na pilotagem a fim de preservar minha integridade física e a dela também, pois certamente ela não era boba!

Esta é uma colocação a princípio absurda, até parecendo utópica, mas numa breve reflexão poderá ser visto que veículos parecem ter vida e até alma, sejam carros, caminhões ou motos, e que diferem na nossa sensação em possuí-los.

Repare bem:
Tem veículos, sejam motos, carros, ou o que mais for, que neles nos sentimos completamente à vontade, não é verdade? Mas existem outros, que ao utilizá-los ficamos totalmente deslocados; alguns que volta e meia batem em outros, são batidos ou arranhados por terceiros; mas existem uns poucos que com eles nada disso acontece. São fatos que claramente demonstram terem eles além de alma, muita personalidade. Concorda comigo?

Indo mais além, comparo todo e qualquer veículo com um animal, notadamente com um cavalo puro sangue:
Se você alimenta bem o animal, trata da sua saúde e demonstra-lhe amizade, sempre que dele necessitar irá encontrá-lo à sua disposição, desejoso e pronto para servir-lhe e até protegê-lo.

Motocicleta é a mesma coisa: Se lhe dá a devida manutenção, coloca combustível, óleo, ou o que mais for, sempre que dela necessitar estará pronta para lhe servir. Razão de ser aconselhável que todo proprietário trate bem da sua motocicleta, haja vista terem elas vida e até sentimentos, não é verdade?

E para confirmar este pensamento cito como exemplo a minha "deusa de ferro" Norton, tendo em vista que sua alma, seu espírito ou fosse lá o que ela tivesse, era totalmente voltada para aventuras, viagens e desafios. Tanto que ao comprá-la já sabia das suas competições, inclusive das realizadas em São Paulo, conforme declarei anteriormente.

Por esse relato creio, fica fácil deduzir, que cada veículo tem realmente a sua personalidade. Personalidade que carinhosamente contagia seu dono, havendo casos de até envolvê-lo com seu carisma, que é o atributo mais forte existente nas motos com as características que apresentei.

E vou até mais longe nesta minha observação, colocando:

Apesar das dezenas de tombos que eu e o garupa levamos nesta viagem de aventuras em razão da precariedade da estrada (inclusive em outras viagens que fiz sozinho), nenhum osso fraturamos. Tivemos apenas simples ferimentos, levando-nos a concluir que, de uma forma ou de outra, ela nos protegeu.

Norton Dominator 500cc em Petrópolis

Continuando essa parte da "personalidade", coloco:
Quanto à interação que tive com a moto, afirmo ter sido ela a provocadora para que viajasse pelo Brasil através da Rio–Bahia e fosse pelo chão em direção ao nordeste para conhecer outros estados, cidades, povoados, naturezas e paisagens; que visse os cidadãos nos seus locais e com eles conversasse; que soubesse dos seus costumes e como vivem; inclusive e, principalmente, pudesse conhecer o tão badalado frevo pernambucano e o carnaval de Recife. Queria realmente descobrir coisas novas, outras fisionomias e pessoas. Fazer amizades diferentes, liberar minha alma de motociclista aventureiro e encarar um mundo desconhecido sem quaisquer amarras. E poder, principalmente, reencontrar em Itabuna-BA a minha outra "deusa", a de carne e osso. Mas isso fica entre nós e as torcidas organizadas do Flamengo, Corinthians e outras tantas.

E sobre tudo o que aconteceu, confesso: Foi uma experiência de vida e um excelente aprendizado de amizade e humanidade.

Concluí que empecilhos encontrados pelo caminho e considerados como inexpugnáveis, podem ser vencidos. Não facilmente, concordo, mas com luta, inteligência e tenacidade, porque temos capacidade para conseguir o que desejamos, porém é preciso querer com vontade... muita vontade!

E se alguma vez o objetivo não foi alcançado, certamente houve preguiça ou medo para consegui-lo. Faltou fé!!!

Vi também como o povo sofrido do nordeste luta para sobreviver, mas mesmo assim é hospitaleiro com o pouco que tem. Sofre com secas, sol causticante, solo infértil e pelo abandono do poder público. Mas embora havendo tudo isso, ainda sente orgulho de ser brasileiro. E tanto fez, que hoje o nordeste é produtivo, independente, quase um oásis.

Eu falei quase. Afinal de contas.....


Os Preparativos

Viagem de Moto Governador Valadares

Como em toda viagem, o fundamental é preparar-se devidamente na tentativa de diminuir as desagradáveis paradas para inesperados consertos, evitar possíveis incidentes e até acidentes, então tratou de providenciar tudo da seguinte forma:
Primeiramente, conseguiu um mapa da região Sudeste / Nordeste, que na época postos de gGasolina os distribuíam gratuitamente (já sentiram a maravilha que era o mapa, não?) Não representava grande coisa mas era o que havia e teve a sua utilidade.

Depois relacionou o que considerou necessário e essencial levar, fosse para uso pessoal ou para a moto. A seguir procurou a oficina de um amigo e mecânico exclusivo, para que desse uma "geral" na moto, substituindo o que estivesse gasto e consertando tudo o que fosse necessário.

Havia também uma adaptação que teria de ser feita para colocação de bolsas e maletas, mas para isso iria procurar um grande amigo, Fernando lanterneiro.

Partindo então para a oficina mecânica e lá chegando, encontrou o grande amigo e 'irmão' Amarandir com sua Manx 500cc ano 1958, que a estava preparando para uma corrida que iria participar em torno do Estádio do Maracanã.

Perguntando ao piloto por que fora até lá, contou-lhe da viagem. Olhou-o fixamente, deu um sorriso maroto e perguntou:

- Vai sozinho?

- Respondeu que sim. Iria sozinho!

- Ele, achando que pudesse estar brincando, a seguir perguntou-lhe novamente e teve por resposta ser verdade. Tendo por fim acreditado, disse então que tivesse muito cuidado porque já ouvira falar do grande perigo que essa estrada apresentava e que ele mesmo certa vez indo do Rio até Caratinga-MG por ela, sentiu o drama na pele, muito embora tivesse viajado numa época boa. Mas por se tratar de estrada perigosa e traiçoeira, de repente tudo pode acontecer, afirmou.

O mecânico Andréa, que também participava da conversa, numa oportunidade perguntou quais ferramentas pretendia levar. Após descrevê-las, indagou: E saca-pneu (era o termo usado para duas ferramentas pequenas próprias para sacar a câmara do pneu), você não está levando? Se furar um pneu na estrada, como irá sacar a câmara para poder consertar ou trocá-la, tendo em vista a dificuldade em achar borracheiro nessa estrada deserta?

É, respondeu. Foi realmente um terrível esquecimento. Em seguida o mecânico caminhou até seu ferramental, retirou algo de uma caixa e voltou presenteando-o com dois pequenos saca-pneu. Essa casual conversa que tiveramm foi oportuna e providencial, tendo em vista o enorme trabalho que o pneu traseiro deu em conseqüência dos muitos furos durante todo o percurso de ida e também de volta. Mas foi na ida que ele causou maior problema em consequência do grande corte que teve, provocado por pedras na estrada, logo no início da jornada.

Por fim, então, foi procurar o lanterneiro seu grande amigo Fernando (apelido Pernambuco), que junto com ele e alguns outros companheiros praticavam um esporte do qual eram também apaixonados: Patinação acrobática.

Já que foi abordado o assunto, peço licença para rapidamente explicar como essa patinação funcionava:

viagem de moto histórica

Era um grupo composto de bons patinadores que faziam exibições em qualquer lugar. Poderia ser em rinques específicos, Clubes, inclusive Praças públicas. Até nas ruas brincavam por ocasião do carnaval, mas o "point" era o rinque de patinação na Quinta da Boa Vista. Até porque, próximo ao rinque, havia um local onde motociclistas se encontravam, estacionavam e ficavam "jogando conversa fora", existindo também um grande parque de diversões chamado "Parque Xangai".

Das apresentações que faziam com patins a mais sensacional de todas era o - Levantamento com "parada em um só braço" - e dela participavam apenas dois patinadores, cujo número era apresentado na seguinte sequência:
Um primeiro serve de base para um segundo, que é levantado pelos braços do primeiro (base) e é por este colocado para o alto, já ficando de "ponta-cabeça" (cabeça para baixo). Após ambos ficarem equilibrados, cada qual solta um dos braços, ficando assim ambos apoiados em um dos braços somente. E essa apresentação era feita com os patins nos pés.

Interessante é que este companheiro que ficava de ponta-cabeça, um dia resolveu ir até Maceió-AL visitar os pais que lá haviam ficado quando ele veio para o Rio. Agora, veja bem, se piloto e garupa foram considerados malucos devido à viagem de motocicleta pelo nordeste, esse companheiro, sem qualquer sombra de dúvida, era um furioso alienado mental. Pois veja só. Por ter comprado uma bicicleta motorizada, de repente, sem mais nem menos, resolveu ir à Maceió com ela mas nada contou para os companheiros sobre essa viagem que faria. Por isso, do resultado negativo que teve, dele só ficaram sabendo quando voltou..., e sem a bicicleta motorizada.

Pelo que narrou, todos entenderam tê-la carregado mais nas costas do que andou em cima dela. Por ser fraca para enfrentar buracos e costelas da estrada, desintegrou-se pelo caminho. Então, depois de muitas caronas após ela ter enguiçado definitivamente no caminho de ida, ao chegar de carona em Maceió com ela quebrada e desmontada, o companheiro vendeu o que dela sobrou e depois voltou de ônibus para o Rio.

Desculpando-me novamente pelas explicações acima, volto ao lugar onde parei quando o piloto foi procurar o amigo patinador e lanterneiro de automóveis (funileiro para os paulistas) a fim de estudarem como seria possível fazer os seguintes procedimentos:

  1. Reforçar o paralama traseiro sem prejudicar a suspensão elástica, de forma que pudesse suportar peso de pequena maleta com algumas roupas. Essa era a minha intenção inicial, mas foi alterada e a explicação se encontra mais adiante;
  2. Colocar tirantes laterais na parte traseira (um de cada lado da moto) para poder sustentar duas pastas com alças (uma de cada lado). Nelas levaria ferramentas e outros materiais necessários para consertos e outros imprevistos que pudessem ocorrer com a moto na estrada, levando inclusive uma pequena bomba de ar para encher pneu, acionada com o pé, que um amigo emprestou.

Ao comentar com esse companheiro Fernando, sobre a viagem, imediatamente ele se ofereceu para ir na garupa da moto, alegando que seria útil pelo fato de ajudar em algum imprevisto de lanternagem que pudesse ocorrer no caminho, e até mecânica..........


Nova Conquista

Conforme anotação feita no Diário de Viagem, além deste posto em Divisa Alegre, já haviam passado por Águas Vermelhas, Teófilo Otoni, Governador Valadares, Caratinga, Muriaé e Itaipava, isso retroativamente até ao Rio.

Moradores que estavam naquele momento batendo papo próximo ao posto rodoviário, escutando casualmente qual seria o destino deles, alertaram-nos que o lugar por onde iriam passar era muito perigoso por ser muito alto, completamente ermo e à noite não havia nenhum movimento nesse trecho da estrada.

Escutaram atenciosamente a recomendação, agradeceram e saíram calmamente.

Como existe o ditado "seguro morreu de velho", finalmente o piloto tirou a pistola da maleta e entregou-a ao Fernando, recomendando: Vá com ela engatilhada na mão, pronta para disparar, mas sempre apontada para baixo. Qualquer perigo que surja, aí sim, levante mire e atire. Atire mesmo! Após a recomendação o piloto ficou tranqüilo por saber que se fosse necessário ele atiraria mesmo.

Tudo pronto e resolvido, partiram imediatamente, tendo em vista que a intenção era atravessar a fronteira com a Bahia e chegar logo a Nova Conquista, que já estava bem próxima, e de lá seguiriam por estrada secundária em direção ao litoral para chegarem à tão desejada Itabuna, terra da "deusa".

Agora vejam: Se pela estrada principal, Rio-Bahia, foram "comendo o pão que o diabo amassou", imaginem o que deverá estar reservado para eles nessa estrada secundária, mais maltratada?

Nesse percurso para Nova Conquista também enfrentaram muitos mosquitos, mas desta vez protegeram seus rostos passando o cachecol sobre o nariz, como se fosse máscara.

Viajaram à noite sem luz para iluminar o caminho porque, estando o dínamo enguiçado, a bateria não tinha mais carga. E por não terem encontrado quem o consertasse resolveram deixá-lo assim mesmo.

O céu estava cravejado de estrelas. O luar, que maravilha! O chão claro, de tão iluminado parecia um espelho, e graças a essa magnífica luminosidade, com facilidade viam grande parte da estrada à frente. A claridade da noite estava tão intensa, que até os vaga-lumes devem ter ficado envergonhados em acender seus pisca-piscas pelo fato das suas luzinhas ficarem esmaecidas sob aquele forte luar. E com essa maravilhosa vista, pra que farol? Farol pra que? Perder essa natureza noturna no interior do Brasil, isenta de qualquer iluminação artificial, de trânsito, poluição? Isso é místico, é raro... É sensacional!!! Disse o piloto.

O local por onde circulavam naquele momento era muito alto e o frio era tanto, que todos tremiam convulsivamente: O piloto, o Fernando e até a moto, que por sua vez estremecia devido ao seu motor e às costelas existentes na estrada.

O céu, feericamente iluminado, parecia estar pouco acima das suas cabeças dando a impressão de que se levantassem os braços tocariam as estrelas.

E quanto ao perigo na estrada pela falta de farol........


Caruaru (retorno)

Aconteceu porém que essa estrada de terra ia dar em nada, talvez porque tivesse errado o caminho devido à chuva que caía forte há bastante tempo. Mediante isto, fez o retorno e vendo haver outro caminho, por ele seguiu. Mas devido a uma distração, aconteceu de mais adiante a moto ficar presa num enorme atoleiro. Atolou tanto, que saíram de cima dela e ela continuou em pé, sozinha, no mesmo lugar. Era uma situação desagradável, porém tiveram de rir do inusitado. Quase metade das rodas ficaram dentro do barro, inclusive o cárter que foi a base para ela ficar em pé sozinha. Por um momento ficaram olhando para ver o que íam fazer a fim de desatolá-la. Enquanto isso uma terrível chuva caía.

A extensão do atoleiro à frente, era enorme. Se tentassem desatolá-la de onde estava ela não poderia ir adiante porque o atoleiro continuava. Os sapatos e parte das calças eram só lama. Os sapatos que haviam saído dentro do lamaçal, tiraram, limparam e os guardaram. Pensando numa solução para tirar a moto dali, chegaram à conclusão que o único recurso seria fazerem um caminho com os galhos das pequenas árvores (umbuzeiros) que haviam na beira da estrada. Foi o que fizeram.
Primeiro cortaram com o facão (haviam levado) os galhos das árvores (eram galhos finos e com folhagem); a seguir cortaram-nos em tamanhos que dessem para as rodas passarem por cima deles com segurança; calcularam um pequeno espaço entre cada um deles, o suficiente para evitar que a roda afastasse um do outro e atolasse adiante outra vez; finalmente os colocaram atravessados na frente e em toda a extensão do atoleiro, começando bem junto da roda dianteira até ao fim do atoleiro.

Pronta a trilha, o próximo passo era desatolá-la e para isso um deles tratou de ficar cavando, enquanto o outro segurava moto. Após ficar livre eles a empurraram para cima da trilha feita com os gravetos.

Chegando finalmente do outro lado da trilha e já fora do atoleiro, pularam em cima da moto para seguirem em frente. Mas antes disso terminaram de limpar os sapatos, as meias e também o grosso da lama das mãos e dos pés, nas poças da água da chuva. Nessa brincadeira toda perderam meia-hora.

Ao chegarem novamente na estrada principal, um pouco antes de um local chamado Mimoso, o que foi que aconteceu? A gasolina acabou. É que da última vez que a torneirinha do cano reserva foi aberta, esqueceram de fechá-la. Aí deu no que deu. A gasolina acabou sem avisar quando chegou na reserva.

Não pediram gasolina a ninguém, porque os poucos caminhões que passavam pela estrada não queriam parar com receio de atolar e além do mais não iriam gostar de tirar gasolina debaixo de tanta chuva. Mediante tal situação e não havendo posto de gasolina próximo (o que era normal), após algum tempo de espera o Fernando conseguiu arranjar carona num FNM (andam devagar) para ir adiante até a cidade de Arcoverde, distante 8/10 km pegar gasolina.

E o piloto ficou na beira da estrada esperando-o voltar.

Parado, ele começou a sentir frio e o pior é que caía chuva grossa. Não tendo onde se proteger, apanhou o oleado que cobria as maletas de roupas e com ele se cobriu.

Já era quase noite quando o garupa voltou de carona com a gasolina. Além do posto ficar muito longe, havia a dificuldade do trânsito de veículos pela estrada cheia de atoleiros, sem se falar do temporal.

Após abastecer o tanque foram obrigados a andar à noite debaixo de chuva forte e sem farol até a cidade de Arcoverde, aonde chegaram por volta das 19h e nela pernoitaram. Se perguntassem onde foi que dormiram não saberiam dizer, tão exausto estavam.

Devido à hora, à chuva e ao frio que fazia, inclusive por causa de.......


Olindina-BA

Na manhã do dia seguinte acordaram lépidos e ansiosos para enfrentar estrada. Aprontaram-se mas nada comeram, porém explicaram ao pessoal da estalagem que iriam comer na próxima cidade porque tinham pressa. Cá entre nós, um lugar que não havia água e ainda por cima muita desarrumação, consideraram nada convidativo que comessem ali, por isso resolveram pagar a conta do pernoite e cair fora, Mas quando o piloto tenta apanhar a carteira no bolso de trás da sua calça jeans onde estava todo seu dinheiro, seus documentos e o da moto, teve desastrosa surpresa.

A carteira havia sumido!!!

No primeiro momento desconfiou do pessoal da estalagem e até olhou de "cara feia" (isso porque é de nascença mesmo) para o proprietário. Mas numa rápida reflexão, viu não ser isso possível porque ninguém entrara no quarto depois deles terem entrado para dormir. E mesmo que tivessem entrado e tentado tirar a carteira do bolso, teriam que mexer no travesseiro, porque o piloto sempre colocava a calça embaixo dele, quando não dormia vestido com ela. Então, o que tinham de fazer era retornar pelo mesmo caminho que fizeram na noite anterior, pela possibilidade de tê-la perdido durante a noite no trajeto.

Tínham que achá-la de qualquer maneira, porque: 1) Poderia ser preso por vadiagem (sem documentos), que na época era uma figura de contravenção; 2) Sem dinheiro seria difícil continuar, pois não colocaria gasolina e tudo mais; 3) E dificilmente poderia vender a moto por desconfiarem ser roubada, o que seria um bom motivo para ser preso e o garupa entrar como cúmplice.

Explicando o problema ao dono da estalagem, imediatamente notou sua desconfiança, o que era de se esperar, porém ajeitou a situação dizendo que iam levar a motocicleta, porém os blusões ficariam ali com ele e na volta os apanhariam e pagariam a dívida, que afinal de contas era quase nada, ao passo que os blusões por serem de couro, eram úteis e valiam um bom dinheiro.

Concordou e até falou não ser necessário deixarem os blusões, mas deixaram. A seguir, piloto e garupa pegam a estrada ainda com um pouco de névoa por ser muito cedo. E como estava sem os blusões, sentiram frio. Vagarosamente foram fazendo o retorno, olhando cada um para um lado da estrada, da mesma forma que fizeram ao perderem os blusões logo na saída do Rio de Janeiro e felizmente os acharam. Como estava iniciando o dia e a estrada era secundária, o movimento por ela naquela hora era nenhum.

Olhando a estrada palmo a palmo, estavam concentrados em cada detalhe dela. Uma pedra, um pedaço de papel, um saco amassado jogado na estrada, a tudo observavam retornando vagarosamente pelo mesmo caminho que haviam feito na noite anterior. De repente, vendo algo parecido com a carteira junto a umas árvores baixas, dirigiram-se imediatamente para lá.

No nervosismo por aquele achado até a moto estancou, por isso deixaram-na no meio da estrada apoiada no descanso. Entusiasmados que estavam, ao aproximarem-se do objeto ficaram logo frustrados porque não se tratava da carteira. Era um pedaço de couro, talvez da sela de algum cavalo.

Já iam voltando, quando sem que esperassem, um vulto num vôo rasante passa próximo às suas cabeças de um lado para o outro, assustando-os. Tratava-se de um gavião e pelo que demonstrava não estava satisfeito com a presença deles ali naquele local, tanto que ia e voltava em zigue-zague, aproximando-se deles com as asas abertas, garras expostas e emitindo altos trinados a fim de espantá-los dali. Então, enquanto o garupa espantava a ave movimentando seu boné de cor escura, o piloto vai rápido até a moto, liga e vai saindo vagarosamente para que o garupa, andando rápido sentasse na garupa. Então assim que correu e sentou, partiram imediatamente.

Vendo que a ave não mais os perseguia, foram mais devagar e tratando de continuar procurando a carteira, que era o mais importante para eles naquele momento.

Seguindo adiante e observando novamente a estrada com bastante cuidado, eis que o garupa lembra do tombo que a moto tomou na noite anterior, no momento em que o piloto aguardava seu retorno do casebre de onde moradores lhes indicaram a estalagem. Aconteceu que, sentado na moto enquanto esperava que voltasse, ele falseou o pé, perdeu o equilíbrio e com isso, pesada como estava, a moto tombou até ao chão. Como já estava retornando do casebre com a notícia da estalagem, ajudou-o levantá-la.

E a seguir, diz: "Será que a carteira não caiu lá naquele tombo????

Motociclistas Invencíveis
João Cruz

Comentários (2)

  1. Glaico Gobbo

Considerando a competência tanto em vida como a de motociclista do amigo João Vicente Cruz, conhecendo todos os detalhes construtivos de sua fiel companheira inglesinha a motocicleta marca Norton modelo Dominator Twin 500cc ano 1954 preparada por corredores do Rio de Janeiro no circuito da Gávea nos idos da década de 50 elevando sua potência para 35 cavalos ao freio (original 31 cavalos), taxa de compressão de fábrica já elevada para aquela época sendo 7,5 por um, ou seja uma mistura gasosa de 250 centímetros cúbicos aspirada em cada cilindro no momento da compressão, ficaria comprimida em 33,333 centímetros cúbicos o que após a faísca e a energia comprimida e volátil seria liberada através de calor e transferência de energia de movimento para o eixo primário do motor e depois para os veios primário e secundário da caixa de 4 marchas marca Burman (relação intermediária) e por fim para o pinhão e coroa na roda traseira na relação final.
https://muscleheaded.wordpress.com/2013/07/24/the-best-of-vintage-british-motorcycles/
O Melhor de Motocicletas britânicas Vintage

  1. João Vicente Cruz Jr.

Nesse momento considero-me verdadeiro Rubinho Barrichello, por ter somente agora, muitos anos depois, visto essa magnífica “síntese” feita pelo autor de vários livros e estradeiro internacional, Rômulo Provetti. Fez, realmente, magnífico resumo da obra.

Quem quiser conhecer a 2ª edição, agora com fotos e ampliada, basta digitar no Google: “nos deliciosos anos dourados”. Oportunamente também aproveito para agradecer os elogiosos comentários do Bal Dourado e Jotan.

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