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Motociclistas Invencíveis - fragmentos da segunda edição

A história de uma aventura radical realizada há mais de 50 anos atrás onde o piloto protagonista, resolve pegar a Rodovia Rio-Bahia (na época conhecida como estrada da morte) para ir nordeste acima por mais de 40 dias, percorrendo milhares de quilômetros.

Ele, carioca, queria encontrar em Itabuna-BA uma linda mulher que ocasionalmente namorara no Rio de Janeiro e que, repentinamente e sem qualquer explicação, desaparecera misteriosamente, talvez retornando à sua cidade de origem, Itabuna.

Fazendo então os necessários preparativos para a viagem, ao procurar um amigo lanterneiro e também companheiro de patinação para que ele adaptasse um bagageiro na sua motocicleta, eis que este, sabendo da aventura, pede para ir na garupa. Devido a grande amizade entre ambos o piloto concordou, mas sem contar-lhe o real objetivo da viagem que era encontrar a amante desaparecida, muito embora seu companheiro a conhecesse do rinque de patinação.

No dia da viagem, tudo preparado, eles partem para a aventura estrada afora, mas sem saber exatamente dos perigos que encontrariam pelo caminho quando saíssem do asfalto e começassem a enfrentar estradas de terra.
Vejam então um trecho do que está contado no livro:

- Continuando o percurso e já no estado de Minas Gerais fizemos uma parada em Leopoldina para reabastecer a moto e carimbar o Diário num Posto da Polícia Rodoviária.

MuriaéCom a moto abastecida, seguimos em frente para Muriaé, começando assim o enfrentamento com o chão de terra, inicio da longa, cruel e penosa sina que dali para frente enfrentaríamos.

No final da tarde, e ainda na estrada, além da quantidade de poeira suspensa no ar para nos incomodar e não deixar-nos ver quase nada à nossa frente, éramos calorosamente recepcionados por um bando de enormes mosquitos que, parecendo estarem providos com bastões de basebol, ao chocarem com nossos rostos era como se estivessem dando-nos tremendas cacetadas. Isso acontecia porque na época não existia capacetes e muito menos viseiras, usávamos apenas óculos e bonés.

A impressão que tivemos foi de termos saído do paraíso e entrado no purgatório, tendo em vista o que passamos dali por diante.

Como se isso não bastasse, dentre as várias coisas que foram acontecendo durante o trajeto, um fato inusitado ocorreu. Foi o seguinte:

Gado

A chuva havia parado, deixando o piso razoavelmente transitável, mas mesmo assim tínhamos de andar devagar e com cuidado. E desde quando pegamos as estradas de terra, vez por outra cruzávamos com bois, cavalos, cabras, jegues e outros animais, mas passávamos tranquilos por todos eles. Hoje entretanto aconteceu diferente. É que num determinado ponto da estrada, quando cruzávamos com uma boiada, o "líder" nos estranhou, e não sabíamos por qual razão. Então, enquanto a boiada passava por nós em sentido contrário, ele mantinha-se parado à nossa frente encarando-nos e abanando pra lá e pra cá o seu rabo abaixado. Nós, por nosso lado, estranhando a situação, paramos também, mas sentimos que ele estava irritado ou temeroso por alguma coisa (ciúmes das vacas não poderia ser, pois nem olhamos pra elas) e achamos que pela situação apresentada poderia atacar-nos a qualquer momento. Eram apenas alguns segundos de tensão, mas que pareciam horas. E para piorar ainda mais, a boiada era grande. Além dessa 'interminável' demora que nos assustava, para dele fugir só poderíamos ir para o mato, exatamente pelo lado que ele estava porque, no outro lado por onde a boiada estava passando, era como se houvesse um muro tal a quantidade de animais emparelhados. Nesse momento, então o 'bendito' garupa teve uma centelha de luz e falou... -


Por essa primeira apresentação já é possível sentir que a história narrada no livro contém estágios com bons e maus acontecimentos, inclusive hilários, mas também com momentos filosóficos como o que a seguir é narrado:

- A região aqui é muito montanhosa, com aclives bastante acentuados e em consequência dessas chuvas e o esforço das trações dos veículos para subirem os aclives ou frearem nos declives íngremes, surgem profundas valas em toda extensão da estrada. Sem falar dos perigosos sulcos enviesados porque, se uma roda da moto, principalmente a dianteira, entrar e derrapar nesses sulcos, é tombo na certa.

No subir e descer montanhas e observando com cuidado a estrada, eis que ao chegar numa elevação superior a muitas outras que estavam adiante, tive a felicidade em avistar um horizonte espetacular. Que maravilha! É indescritível! Só morros e verdes matas, mais nada, a não ser a chuva que tornava mais verde aquela natureza pura. Os morros apresentavam-se, imponentes, austeros e fortes; as matas, ostentavam um verde maravilhoso com belas e frondosas árvores; e quanto oxigênio puro só para nós dois! Isso é mais delicioso do que qualquer perfume raro. É vida, muita vida! É a visão da mãe natureza desnudada na sua maior simplicidade!

Mas se por um lado esta visão se apresentava espetacular com forte sensação de segurança e bem estar, por outro, essa mesma vista tornava-se assustadora. E vou dizer porque:

Quando do alto desse morro admirei esse deslumbrante espetáculo que descrevi, vi também à minha frente uma estrada infinitamente reta (muitos retões) subindo e descendo morros até desaparecer na linha do horizonte onde a vista já não mais a alcançava. Nesse momento, com sentimento de leve insegurança, disse para mim mesmo: Quanto mais ainda andaremos debaixo do sol escaldante; da poeira incomodativa; da chuva que torna a lama perigosa; e do frio por demais intenso no alto desses morros?

Nesse momento senti a incrível semelhança desse fato com o que ocorre com nossas vidas:

Essa estrada descortinada à minha frente, momentos com subidas e outros com descidas, ocasiões com muita poeira e outras com lamaçais é o espelho da nossa existência nesse mundo, pois nele vejo completa semelhança com nossas vidas, tendo em vista que existem momentos onde tudo nos transcorre com facilidade e em outros quando só encontramos dificuldades; ocasiões de sermos bem sucedidos comercial e socialmente e em outros momentos acontecer de cairmos devido a alguns insucessos; ora adoecemos, ora estamos completamente saudáveis; e por fim a eterna expectativa de não sabermos até onde e como chegaremos nessa estrada barrenta de agora, e a eterna expectativa que todos nós temos de quando morreremos.

Desligando-me desse pensamento e voltando à realidade, percebi a importância do arrojo e do destemor para encararmos os desafios, vendo outrossim que para vencê-los são necessários calma, inteligência e concentração.
Bom, voltando às estradas de Minas Gerais, vamos continuar com nosso trajeto em direção à Nova Conquista-BA.


Alagamento na estrada

Como já está sendo possível ver, o drama deles foi enorme em razão da poeira, buracos e mosquitos; ficando ainda pior quando a estrada era só lama e atoleiros devido a muitos temporais. Tão terríveis foram os temporais, que em certos lugares tiveram de jogar víveres de paraquedas a fim de socorrer pessoas sitiadas nas estradas e nas casas, em razão das enchentes. Acontecendo por isso uma passagem impressionante, da qual contarei apenas parte para não cansar os caros companheiros:

- O garupa acorda e diz que também desejava sair logo a fim de abreviar nossa chegada ao Rio, mas retruquei dizendo: Espera aí! Agora com o dinheiro que conseguimos em Jequié, antes de viajar vamos é tomar um bom café da manhã na cozinha dessa pensão, que parece se bem asseada.

Estávamos na cozinha tomando tranquilamente nosso café, por sinal muito bom, mas já havíamos notado que desde nossa chegada ali vinha de um cômodo qualquer da pensão sons de alguém gemendo, que em alguns momentos se tornava alto e bem perceptível. E o som emitido indicava ser de voz feminina.

Incomodados e curiosos com aquilo, perguntamos à senhora que nos estava servindo do que se tratava, pois parecia que alguém estava sofrendo muito. Ela respondeu não ser grande coisa e que por isso não nos incomodássemos porque era apenas uma forte dor de cabeça que uma pessoa estava sentindo.

Não! Aquela resposta não nos convenceu! Até podemos aceitar que uma dor de cabeça incomode e faça a pessoa gemer. Mas daquele jeito... Não! Insistindo para vermos o que realmente se passava, ela nos levou até ao cômodo onde estava a pessoa que gemia.

Ao entrarmos num diminuto quarto vimos uma menina nova, magra, talvez com uns 14/15 anos e que poderia até ter mais, visto que em locais pobres, crianças se alimentam mal e por isso parecem ter menos idade que na realidade.

Deitada numa modesta cama de solteiro, gemia de dor. Muito preocupados com aquilo perguntamos para a tal senhora o que realmente havia, pois poderíamos ajudar se fosse possível.
Ela então conta:

Era sua filha... e devido a um gesto impensado por parte da menina, resultara uma infecção que já estava agora muito perigosa. Aconteceu que, a fim de esconder problema que resultara de um namoro secreto, a menina arranjara outro ainda maior, gerando essa grave infecção.

Não havia ainda levado a filha ao médico em Jequié porque ninguém conseguia passar na estrada. E ela já estava, há dias, aguardando uma oportunidade. Mas estava agora assustada devido ao agravamento do quadro que a menina apresentava, e cada dia piorava mais.

Não conformado com a resposta, disse-lhe:

"Se nós ontem à tarde viemos de Jequié pela estrada, na moto, podemos voltar e levar a menina, pois são apenas cerca de uns 40 km. Ela aqui, sem recursos continuará sofrendo, podendo até morrer. Ir pela estrada haverá risco, sim, mas será um risco calculado. Veja bem como faremos: As bolsas e maletas ficam aqui; Ela vai entre mim e o garupa, que por sua vez a protegerá com os braços, passando-os por baixo das axilas dela e segurando em mim, no meu blusão de couro; dessa forma ele irá ampará-la impedindo que caía e iremos devagar até ao hospital a fim de evitar trancos em obstáculos; só precisaremos de um documento que nos autorize fazer isso."

Agora faço uma pausa para externar o que pensei logo após esse oferecimento feito na base da emoção:

"Só dois malucos poderiam ter uma ideia dessas. Colocar em risco a vida da menina e sofrer terríveis consequências que certamente cairiam sobre os dois se porventura acontecesse o pior. Mas por falta de iniciativa da mãe da menina algo tinha de ser feito. Afinal a garota estava morrendo!!! E ali onde estavam não havia qualquer chance ou recurso que pudesse salvá-la. Para nós, naquela altura dos acontecimentos e pelo que já havíamos passado e enfrentado por todo o caminho, tudo isso era festa. Para nós não mais existia o pior após tudo o que já havíamos experimentado e sofrido pelo caminho. E a sensação que sentíamos era de estar numa guerra atravessando campos de batalha" -

 


 

Em Ilhéus

Bem, de acordo como está colocado logo no inicio, o maior interesse do piloto nesta viagem era encontrar sua linda amante desaparecida. Por isso, após muitos percalços em plena ida pela estrada e passando por várias situações dramáticas, tais como: Perda da carteira com todo dinheiro e documentos; o tombo na lama escorregadia, que de tão curioso foi considerado inusitado; o caso do 'porco rebolation', que após derrubá-los saiu da estrada rebolando, tudo detalhadamente contado no livro. Mas finalmente chegaram na tão desejada cidade de Itabuna para írem logo depois a Ilhéus (fica próxima), onde casualmente aconteceu algo extraordinário que a seguir cito trecho da história:

Itabuna

- Após sairmos de Itabuna e começando a sentir uma sensação estranha acompanhada de tonteira, e não sabendo se pelo almoço ou se pelo nervosismo que senti quando pensava que a Terezinha apareceria no portão da sua casa, mas não apareceu, disse para o garupa que iria dar uma parada rápida. Vendo à frente uma frondosa árvore na areia e próxima ao mar, estacionei a moto, sentei no chão e nela encostei-me para descansar um pouco na sua sombra, enquanto o garupa por sua vez afastou-se para observar melhor o mar e andar pelas redondezas da praia. Certamente iria paquerar alguma sereia baiana.

Nesse momento, olhando a extensão da praia à minha frente, sou surpreendido por uma imagem que, parecendo-me familiar fez-me prestar maior atenção a esse fato e até esquecer-me do enjoo.

Sem acreditar no que estava vendo, notei moça elegante e muito bem vestida, que vindo de barco movido a motor de popa, desceu na praia acompanhada por dois elementos que a acompanhavam. Estava num tipo de transporte muito usado pelos barões do cacau que moravam em verdadeiros palácios nas ilhas existentes na região de Ilhéus.

A princípio fiquei achando ser apenas uma visão, pelo fato de estar muito concentrado em localizar a Terezinha, mas como na nossa passagem aqui pela terra até o impossível acontece, esqueci tudo e imediatamente me dirigi para onde essa moça estava.

Quanto mais me aproximava, mais acreditava ser ela, até ter absoluta certeza que dessa vez era ela, a minha querida 'deusa'.

Estava com um vestido claro, longo, sandálias, óculos escuros e um chapéu de abas largas que a protegia do sol naquele momento e dele sobressaíam esvoaçando ao vento seus belos e longos cabelos loiros.

No que apareço à sua frente e digo seu nome, ela olha demonstrando enorme misto de surpresa e alegria, mas em seguida toma outra postura, dessa vez mais reservada e um pouco séria.

Cumprimentando-a então com alguma formalidade, pois não sabia qual era a situação dela ali em Ilhéus, notei que o barqueiro e um companheiro que o acompanhava, ambos vestidos de calças compridas, sandálias e camisetas, não gostaram dessa minha aproximação.

Perguntando à Terezinha as razões do por quê dela ter voltado repentinamente para a Bahia, no exato momento em que ela vai contar, o barqueiro com cara de poucos amigos se mete na conversa e diz para que eu me afastasse porque "o coronel" (barão do cacau) não queria que nenhum desconhecido se aproximasse dela. Mas pelo fato de estar naquele momento sendo surpreendido por acontecimentos tão estranhos, rapidamente fiquei pensando no que deveria fazer, já que estava decidido em saber tudo que ali finalmente estava acontecendo.

Observando o companheiro do barqueiro que me impedia de falar com a Terezinha, notei ter ele apanhado uma faca no chão do barco e vindo em seguida na minha direção a fim de atacar-me com ela.

Sem nada pelas proximidades que pudesse pegar para desarmá-lo ou pelo menos detê-lo, por puro reflexo ameaço que iria sacar uma arma de dentro do meu blusão de couro. O atacante percebe esse movimento e pára no meio do caminho, dando-me tempo para abaixar-me, pegar um punhado de areia e jogá-la nos seus olhos.

No momento seguinte que olho para o tal barqueiro, vejo que ele empurra a Terezinha, jogando-a na areia, e em seguida vem correndo na minha direção. Esquivando-me dele a tempo, aplico-lhe uma 'pernada' e ele vai ao chão.

Vendo que o que estava com a faca continuava atrapalhado para poder enxergar, fui novamente para cima do barqueiro derrubando-o outra vez com mais outra 'pernada'. Voltando-me então para o que estava com a faca, dessa vez vejo-o caído na areia e próximo a ele o garupa segurando seus patins pela correia, para em seguida sair correndo a fim de também atacar o barqueiro, que novamente se levantava da segunda 'pernada' que havia sofrido.

Este, vendo a disposição do garupa para atacá-lo e já sabendo o que acontecera com o seu comparsa, sai correndo seguido pelo outro, que mesmo ferido e sangrando deixou a faca caída na areia e saiu desembestado (justa expressão do nordestino).

Perguntando ao garupa como soube da confusão, este disse ter visto a cena de onde ele estava, foi rapidamente até a moto, tirou de uma das pastas o seu par de patins e segurando-o pelas correias (antigamente eram finas correias que prendiam nos sapatos alguns tipos de patins) veio correndo para desarmar o que estava com a faca, dando-lhe uma 'patinzada' tão bem dada que o fez cair largando a faca.

- Aqui vai uma pausa para comentar: Sempre que íamos a lugares mais distantes levávamos nossos patins para o caso de, havendo uma oportunidade e local, fazíamos uma modesta exibição, o que aconteceu posteriormente no Recife, em pleno carnaval e filmado pela TV que estava inaugurando, fato que será contado oportunamente. -

Continuando: Dirigindo-me então para onde estava a Terezinha ainda deitada na areia após ter sido empurrada, notei que seu semblante, antes tenso e temeroso, era agora só serenidade, exatamente como sempre a via e que naquele momento se coadunava perfeitamente com o local e com a tranqüila mansidão daquele mar que preguiçosamente chegava até a areia como querendo também participar daquele sublime encontro.

Finalmente, após tudo acabado e serenado, ao abaixar-me para abraçá-la e beijá-la, e ela numa tensa e ansiosa expectativa para que esse momento acontecesse, eis que sinto algo muito estranho queimando minhas pernas, incomodando-me cada vez mais, mais, mais e mais, até que.. " -

Bem, o restante está no livro.


Mas se os caros "irmãos" gostam de surpresas maravilhosas e reais, contarei uma de quando eles, na ida, estavam em Ibimirim-PE:

- A viagem nesse trecho tinha sido terrível e para complicar ainda mais, surgiu esse problema da mesa inferior do telescópico partir.

Olhando para ver se achávamos alguma oficina ainda aberta à noite, nessa cidadezinha que por graça divina vimos no caminho, localizamos um barraco que além de serralheria era também ferreiro (ferrar animais) e quem nos atendeu foi o dono, Sr. Severino. Pessoa alegre, prestativa, que até deixou o Fernando aplicar a solda. E por nada ter-nos cobrado pela solda que o Fernando fez, agradecemos a gentileza. Ainda bem porque nosso dinheiro estava no fim.

Notando que a oficina, além de pequena estava abarrotada de ferros e outros objetos, não querendo abusar da boa vontade dele perguntamos se somente a moto poderia ficar ali, ele respondeu: "Podem deixar! Se os jovens repararem bem vão ver que a oficina não tem nem porta porque fica aberta dia e noite. Mas podem ficar sossegados porque aqui não tem perigo. Lugar pequeno, todo mundo se conhece".

Por curiosidade resolvemos olhar e vimos que realmente não havia porta na oficina.

Perguntando se indicava um local para nós comermos e que tivesse preço acessível (o dinheiro já estava escasso e havia ainda muito chão a enfrentar), disse que procurássemos a casa de uma senhora que às vezes cozinhava pra fora. Deu-nos a direção e fomos até a tal casa, a pé, deixando a moto estacionada na oficina.

Batendo na porta da tal casa uma senhora gorda veio nos atender, dissemos o que desejávamos e então falou para entrarmos.

Contou-nos o que poderia fazer para nos servir, deu-nos o preço da refeição, mas pousada informou que não tinha e nem sabia quem teria, pois ali não era um lugar de parada. Quem trafegava pela estrada passava direto, sem parar.

Aceitamos as refeições, pagamos e ficamos na sala aguardando que ela aprontasse e nos servisse o jantar.

Enquanto esperávamos as refeições, duas bonitas garotas de seus vinte anos, entraram e nos olharam intrigadas pelo fato de sermos desconhecidos no local. Mais intrigadas ainda ficaram por estarmos trajando roupas diferentes das usadas no local e ainda com boné e cachecol. Mas felizmente logo se descontraíram e vindo até onde estávamos, passamos a conversar.

Disseram que eram primas, moravam ali com a madrinha (a senhora gorda), estudavam à noite na casa-escola da localidade e de dia trabalhavam numa olaria. Fora disso nada mais tinham para fazer, a não ser irem no fim de semana ao cineminha da igreja, quando tinha.

De nossa parte contamos sobre a viagem, que éramos do Rio, falamos das nossas profissões, dissemos que as achávamos bonitas, que estávamos ali esperando prepararem a comida e depois iríamos procurar um lugar para passarmos a noite e seguir viagem bem cedo no dia seguinte.

Enquanto conversávamos chegaram as nossas refeições, mas como elas só iriam jantar mais tarde, se despediram e saíram.

Terminado o jantar, que foi muito gostoso, variado, farto e principalmente barato, tínhamos agora em mente procurar logo um lugar para pernoitarmos, pois já estava ficando tarde.

Povoado pequeno, caminhando devagar, passamos casualmente por uma pracinha e lá, sentadas sozinhas em um banco, vimos as duas garotas como se estivessem esperando alguém.

Caminhamos até elas, que nos receberam muito bem e foram logo perguntando se já havíamos arranjado lugar para ficar, o que respondemos negativamente. Continuando a conversa, falaram do dia-a-dia triste que levavam naquele local sem qualquer perspectiva de futuro para elas; que tinham saído de suas casas em Campina Grande-PB para viverem ali, mas estavam com vontade de voltar porque lá, além de já estarem ambientadas, havia mais diversão, escolas, mais oportunidade para arranjarem um bom trabalho e muitas outras coisas para fazerem; e que além do mais estavam com muitas saudades da casa e da família.

Perguntando-lhes então por que não voltavam para suas verdadeiras casas, responderam estarem temerosas da reação das mães, pela possibilidade de não receberem-nas bem e aí não terem mais onde ficar, pois não teriam coragem nem condições econômicas de voltar para a madrinha ali em Ibimirim-PE. Após esta colocação, imediatamente perguntaram se na nossa trajetória poderíamos passar por Campina Grande-PB e levar um recado para as suas mães. Sentindo pena das garotas respondi-lhes que poderíamos ir, bastava darem-nos o endereço e o nome das pessoas que deveriam receber os bilhetes. Mas meu pensamento naquele instante, era: "Se para chegar a Recife estava sendo dureza, o que não será preciso fazer e também enfrentar para irmos até à casa das suas respectivas mães a fim de entregarmos os bilhetes? Mas como tudo na vida dá-se um jeito, vamos em frente".

Alegres, disseram que quando voltassem à casa da madrinha para jantar, fariam os bilhetes para nós levarmos.

E agora... Surpresa!!!

A seguir falaram: "Já que não arranjaram lugar para dormir e já está tarde, vão lá para o nosso quarto" (creio que automaticamente naquele momento arregalamos os olhos e abrimos a boca. Acho que até a língua pusemos pra fora).

Surpresos pela inesperada colocação do convite e ainda por partir de duas garotas bonitas e bem educadas, eu e o Fernando para disfarçar, mas um pouco sem jeito (ainda estávamos impactados devido ao convite) dissemos que iríamos incomodar, inclusive à madrinha que notamos ser pessoa bastante austera. Responderam que ela não iria saber de nada, principalmente dos bilhetes e explicou como devíamos proceder para chegarmos ao quarto delas:

Que fôssemos só depois das 22h30min, mas que não entrássemos pela porta da frente. Por ficar o quarto delas atrás da casa no 1º andar, que déssemos a volta na casa, subíssemos numa árvore e através de um galho que vai até a varanda do quarto delas, passássemos por ele e entrássemos. Elas nos receberiam e poderíamos passar a noite lá, desde que prometêssemos não fazer barulho e que saíssemos antes do amanhecer.

É lógico que prometemos. Quem em sã consciência numa hora dessas diria outra coisa?

Confirmando então o convite despediram-se e foram para casa jantar, tomar banho e dormir (e o mais importante: nos esperar).

Por estar ficando tarde, o movimento que já era pouco, naquela hora era nenhum. Passeando então pelas poucas ruas e observando as casas a fim de fazer hora, por coincidência passamos na porta do pequeno cemitério local e o Fernando sem mais nem menos, diz:

Olha aí João, o portão está aberto! Se lá não der certo, já temos lugar para dormir.

Não achando graça na brincadeira, repreendi-o. Talvez por essa gracinha que fez, em Campina Grande ele pagou com 'justa moeda'.

Voltando à oficina, o Sr. Severino deixou-nos tomar banho, trocar algumas peças de roupa e depois de limpos e trocados saímos, não antes do garupa dizer que iria colocar um "cheiro" (expressão nordestina de perfume).

22h45 e lá fomos nós a pé, deixando a moto na oficina já pronta para viajarmos no dia seguinte. Sorrateiramente chegamos até a tal árvore e antes de nela subirmos tiramos os sapatos e meias a fim de facilitar a subida. Então, enquanto o Fernando ficava embaixo com eles eu subi um pedaço do tronco da árvore. Estando já em cima ele me passou os sapatos com as meias e coloquei-os num galho (é que poderia passar alguém, ver os sapatos no chão e levá-los, e sem sapatos não poderíamos ficar). Em seguida o Fernando também subiu. Passei para o tal galho que ia até à varanda, galho este que por não ser muito resistente pedi ao Fernando para nele se pendurar só quando eu já o tivesse largado. Chegando na varanda onde a Gabriela e a Mariazinha já nos esperavam, imediatamente entrei pela porta que dá para o quarto delas. Nisso, o Fernando escorrega no tronco e agarra-se num galho mais fino que quebra e o faz cair...


Sobre a brincadeira feita pelo garupa na porta do cemitério quando fazia hora para irem encontrar as moças, vejam qual foi o castigo que mais adiante ele sofreu:

- Deixando a moto para pequenos reparos numa oficina no centro de Campina Grande-pB, após pedirmos informações às pessoas do local, pegamos uma condução e fomos para as casas das mães da Gabriela e Mariazinha para entregarmos os bilhetes.

Por estar chovendo tivemos dificuldade para pegar a condução mais adequada e acabamos saltando num lugar ermo e distante da casa delas. Solicitando uma orientação às pessoas que passavam apressadas devido à chuvinha que caía, conseguimos saber, que para encurtar caminho, não termos de subir ladeiras e sairmos exatamente onde queríamos, era ir por dentro do cemitério porque, se assim não fizéssemos teríamos de dar uma volta muito grande. E com chuva, já viu o transtorno que nos causaria esse outro caminho.

O garupa por sua vez achou melhor andarmos mais porque não tínhamos pressa, porém não concordei. Como a chuva incomodava muito, quanto mais rápido chegássemos às casas das mães das garotas, mais cedo estaríamos livres para irmos embora. Então falei que iríamos mesmo era pelo Cemitério. Ao ouvir isso, quase que ele cai para trás!

Se eu tivesse adivinhado o que iria acontecer lá dentro, não teria ido pelo cemitério, não. Sinceramente!!!

Cruz no cemitério

O cemitério era grande mas o muro era baixo e fácil de escalar, não sendo por isso problema para nós. E para não perdermos a direção de para onde íamos, teríamos de ter referências a fim de sairmos exatamente no local indicado.

Para o garupa pular aquele muro, mesmo sendo baixinho, foi um custo pelo fato de colocar uma porção de dificuldades, tendo em vista o medo que expressava através da fisionomia. Já lá dentro dizia estar vendo alguém e que esse alguém poderia ser o vigia. Eu dizia para ele que então ficasse calado, pois assim o vigia não nos ouviria, e que andasse depressa por causa da chuva. Não satisfeito me chamou porque viu uma luzinha sobre uma sepultura, depois disse que à noite cemitério pode até ter fantasma, etc.etc. Por estar cheio dessas lamúrias dele, apressei o passo para que me acompanhasse com dificuldade e assim esquecesse aquelas bobagens.

Após caminhar durante algum tempo, realmente não mais escutei suas lamentações. Achando estranho ter-se calado tão rápido e demoradamente, parei, olhei para trás, e não o vi. Mas pude ver mais acima e sob uma pequena marquise que ornava uma sepultura, linda e enorme coruja cinza e branca (devia ter uns 40/50 cm de altura) que ali estava protegendo-se da chuva. Completamente imóvel, olhava para mim com seus olhos claros e enormes, parecendo até que queria me "paquerar" pelo fato de vez por outra piscar aqueles grandes olhos. Mas preocupado que estava com o garupa, observei-a somente um pouco.

Olhando em volta e não o vendo pelas imediações, pensei: Será que por estar apavorado, voltou?

Mais concentrado, porém, escuto um som abafado que vinha de dentro do cemitério, mas bem difícil de ser localizado. Continuando a escutar aquele som estranho, fui voltando com bastante atenção para saber do que se tratava e de onde vinha. Ao me aproximar e por isso o som estar mais alto, consegui finalmente localizá-lo. Vinha de dentro de uma cova bem profunda, aberta talvez naquele dia e... –

 


Engraçado era ver a cara e as condições que ficara o garupa. Mas isso está detalhadamente contado no livro.

caminhão

Na volta, devido a intensa chuva, houve um momento em que não agüentando mais as dores provocadas pela chuva (na época não existia capacete nem viseiras), tiveram de pedir ajuda:

- A estrada por aqui está bem pior. Tanto está, que já vimos vários caminhões tombados dentro e fora da estrada. Pequenas pontes de cimento por estarem danificadas, não estão permitindo a passagem dos veículos, mas nós estamos conseguindo passar.

A chuva de tão insistente, grossa e pesada nos castiga e machuca bastante quando bate no nosso rosto, parecendo até pedradas que recebemos.

Estava tão incomodativa, que obrigou-nos pedir abrigo a um senhor que estava na porta de um casebre de pau-a-pique, próximo à estrada olhando a chuva pesada cair.

Encontrava-se em pé na porta de uma choupana que tinha teto de palha, paredes de barro com bambu e chão de terra. Parei na sua frente e perguntei se poderia deixar-nos entrar um pouco até que a chuva se acalmasse, porque ela estava nos machucando.

Gentilmente mandou-nos entrar e sentamos os três num tosco banco de madeira (eu, ele e o Fernando) e ficamos trocando conversa. Passado algum tempo perguntou-nos se queríamos ver a casa, dissemos que sim e então nos acompanhou para mostrá-la. Havia a pequena sala onde tínhamos estado, cujo único móvel existente era o banco onde havíamos sentado. A seguir passamos por um quartinho escuro, mas deu para notar esteiras e trapos no chão, que deveriam ser camas improvisadas e vimos também outros trapos pendurados dentro do quarto, que talvez fossem roupas. Na sala onde estávamos sentados e encostados numa parede, atrás dela ficava a cozinha num reduzido espaço, onde havia uma mesinha de madeira, um fogão à lenha feito de barro com tijolos, uma panela de ferro tampada e mais nada. Nenhum mantimento se encontrava à vista. O banheiro nem perguntamos, mas deveria estar do lado de fora do casebre.

Perguntando-lhe quem morava na casa, calmamente respondeu:

Ele, a mulher e uma filha que ali não estavam por terem ido para a roça trabalhar. Ele não foi porque chovia muito e está se curando de uma tuberculose. E completou dizendo que quando elas voltassem fariam a comida do dia com o que trouxessem da roça, onde trabalhavam como meeiros.

Aí pensei: São sobreviventes... denodados guerreiros. Na luta pela sobrevivência caem feridos mas não se abatem. Levantam e continuam bravamente lutando, mesmo extenuados que estejam devido à árdua e diuturna batalha.

Comentários (2)

  1. jotan

Olá, Bal Dourado. Agradeço seu comentário por estimular pessoas a lerem o livro na segunda edição. Você está certo! Tem momentos tão terríveis que arrepiam porque decisões têm de ser imediatamente tomadas; outros são simplesmente hilários; e na maioria das vezes, pura aventura e romantismo. E é nessa diversidade que está o "sal da vida", tornando o livro além de empolgante, diferente de qualquer outro no gênero.

  1. bal dourado

que aventura em, me arrepiei so de ler algunhas partes,imagine o livro

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