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Estória ou História?

Amigo motociclista, você que é da área, leia, analise e diga se é estória ou história o que vou contar:

Mas veja que se trata de uma narrativa forte!

E para que seja possível entender o ocorrido na cidade de Imbuíra-BA, abaixo narrada, faço uma introdução explicando o por quê da aflitiva situação na época, quando piloto e garupa voltavam pela estrada Rio-Bahia, BR-116, da Paraíba-PB para o Rio de Janeiro-RJ, numa viagem de 6.000 km e que durou 41 dias.

Foi assim:

Devido ao grande dilúvio ocorrido no nordeste em 1960 (época dessa narrativa), o presidente Juscelino Kubitschek mandou jogar víveres de paraquedas para motoristas ilhados nas estradas, inclusive nas aldeias e pequenas cidades completamente arrasadas, pelo fato deles não poderem ir para frente nem para trás e por isso já estarem passando necessidades. Para piorar a situação, a distância de um povoado para outro, via de regra, era de centenas de quilômetros e por estradas de terra e ermas. Isto colocado, começo então a narrativa extraída do Original:

Após terem passado pela cidade de Jequié-BA através da estrada Rio-Bahia (BR-116) e enfrentando verdadeiro dilúvio cujas consequências deixaram pequenas pontes caídas ou quebradas e imensos atoleiros pelos quais somente eles passavam. Carros, caminhões e às vezes até tratores que se atrevessem ficavam atolados.

Eis que no final de um dia de muita luta chegam cansados a uma pequena aldeia, onde conseguem comer e dormir.

No dia seguinte acordam cedo pela manhã e com alegria verificam que algo de bom estava acontecendo. Embora ainda estivesse o céu nublado, a chuva havia finalmente parado.

Aprontam-se para seguir viagem, mas antes resolvem ir até a cozinha para tomarem um café da manhã, coisa que raramente acontecia.

Deliciando-se com o raro café que conseguiram tomar, visto estarem com pouco dinheiro, começam a notar que desde que chegaram na cozinha, escutavam ruídos vindos de um cômodo qualquer da pensão. E pareciam ser de alguém gemendo. Havia ocasião em que o gemido era tão alto, que os incomodava. E o som parecia ser de voz feminina.

Incomodados e curiosos com aquilo perguntaram à senhora que os estava servindo do que se tratava, pois parecia que alguém estava sofrendo muito. Ela respondeu não ser grande coisa e que por isso não se incomodassem. Era apenas uma forte dor de cabeça que uma pessoa estava sentindo.

Não! Aquela resposta não os convenceu! Até poderiam aceitar que uma dor de cabeça incomode e faça a pessoa gemer. Mas daquele jeito... Não! Insistindo para verem o que realmente se passava, acompanharam a tal senhora e foram até ao cômodo onde estava a pessoa que gemia.

Ao entrarem num diminuto quarto viram uma menina nova, magra, talvez com uns 14/15 anos e que poderia até ter mais, visto que em locais pobres, crianças se alimentam mal e por isso parecem ter menos idade que na realidade.

Deitada numa cama de solteiro contorcia-se de dor e nem deveria ter prestado atenção neles porque virava-se de um lado para o outro, sempre gemendo. Preocupados com aquilo, perguntaram para a tal senhora o que realmente havia acontecido, pois até poderiam ajudar se fosse possível.

Ela então conta:

Era sua filha e devido a um gesto impensado por parte da menina, resultara uma infecção que já estava agora perigosíssima. Para esconder um problema que fora o resultado de um namoro secreto, a menina arranjara outro ainda maior que acabou gerando essa grave infecção.

Não havia ainda levado a filha ao médico em Jequié, porque ninguém conseguia passar na estrada e ela estava, há dias, aguardando uma oportunidade. Mas já se encontrava assustada devido ao agravamento do quadro que a menina apresentava e cada dia piorava mais.

Não conformado com a resposta, o piloto falou: “ Se ontem à tarde conseguimos vir de Jequié até ali na moto, poderiam voltar e levar a menina, pois são apenas cerca de uns 40 km. Ela aqui sem recursos continuará sofrendo e poderá até morrer. Ir pela estrada haverá risco, sim, mas será um risco calculado. Veja bem: As bolsas e maletas ficariam aqui. Ela iria entre mim e o garupa (o lanterneiro), que por sua vez a protegeria com os braços passando-os por baixo das axilas dela e segurando em mim, no meu blusão de couro.

Dessa forma ele a ampararia, não deixando que caísse. Iriam devagar até ao hospital a fim de evitar trancos em obstáculos. Só precisariam de um documento que os autorizasse fazer isso.

Nota - Para os novos motociclistas informo: lanterneiros (funileiros para paulistas) tinham mãos muito fortes por desempenarem, estruturas e baterem com martelo e encontrador nas chapas de aço para desamassá-las. Hoje em dia as chapas são tão finas que parecem folha de papel. Mas antigamente eram de aço grosso, o que obrigava mais esforço dos lanterneiros, até para cortá-las com tesourões. Isso fazia com que suas mãos fossem muito fortes.

Agora faço uma pausa para externar o que pensou o piloto logo após o oferecimento que havia feito: “Só dois malucos poderiam ter uma idéia dessas por colocar em risco a integridade física da menina e de sofrerem possíveis consequências que certamente cairiam sobre os dois, se porventura acontecesse o pior. Mas por falta de iniciativa da mãe da menina, algo tinha de ser feito. Afinal, a garota estava morrendo! Ali onde estava não havia qualquer chance ou recurso que a salvasse. Para eles, naquela altura dos acontecimentos e pelo que já haviam passado por todo caminho, tudo era festa. Para eles não mais existia o pior após tudo o que já haviam experimentado e sofrido pelo caminho.“

Continuando então a narrativa:

A mãe da menina por estar em dúvida, refletiu por algum tempo e depois falou: Está bem! Levem-na para o Hospital em Jequié, mas não deixe de me dizer onde ela ficou, moço, por favor! Pode ser que amanhã chegue um parente com um Jeep com tração nas 4 rodas. Se ele conseguir chegar, eu vou tentar ir lá.

Faço aqui uma pausa para dar uma razoável explicação:

Naquela época as pessoas acreditavam mais umas nas outras, além do fato de não haver outra alternativa na ocasião.

Então, enquanto se ajeitavam na moto junto com a garota, a senhora foi para a sala, demorou um pouco e na volta entregou-lhes a autorização, que ali na hora escreveu. Deu a certidão de nascimento da menina, foto da garota com ela (mãe) e falou: Por favor, saiam com cuidado e vão com Deus!

Deixaram a bagagem na pensão e a seguir pegaram a menina cheia de dores colocando-a entre eles, amparada pelos braços do garupa. Nisso, a senhora colocou num saco plástico algumas roupinhas de dormir, que foi amarrado no bagageiro que estava vazio. Ah, sim, um detalhe: Um pouco antes, a mãe da menina deu-lhe algo para beber e então perguntaram o que era aquilo, no que ela respondeu se tratar de um calmante caseiro para aliviar as dores da menina durante o percurso.

Nota: Foi possível colocá-la “confortavelmente” entre eles, porque o banco (piloto/garupa) era inteiriço e plano.

Assim que a ajeitaram entre eles ela encostou a cabeça nas costas do piloto, que ficava curvado para a frente devido ao guidão de corrida que a moto possuía.

Verificando então estar ela bem amparada, partiram.

Após algum tempo de muita atenção na estrada, a luta para passar pelos vários buracos escondidos sob a água e vencer pequenos atoleiros, o garupa lembrou muito bem que o trecho pior estava por chegar e quando lá chegassem o piloto teria de saltar a fim de equilibrar melhor a moto e até empurrá-la. Mas o garupa de forma alguma poderia sair da moto, porque se isto fizesse não teriam como amparar a menina.

A lembrança é porque havia um atoleiro com mais de 20 metros de extensão, de um lado ao outro da estrada, e que era perigosíssimo. Se nos outros atoleiros era difícil até moto passar, neste nenhum veículo passava, nem motocicleta (porém isso não era com eles, porque com malucos ninguém se mete, nem atoleiros). Mas aconteceu que no dia anterior já haviam passado por ele. Com dificuldade, sem dúvida, porém passaram. Mas agora, devido à responsabilidade de estarem com a menina, teriam de agir com maior atenção e prudência. Verificando então que do lado em que iam não poderiam prosseguir por haver um caminhão tombado no extremo da estrada, além de outros atolados dentro dela, foram para a contramão (lado que tinham passado no dia anterior) e ao chegarem no início do atoleiro o piloto saltou com cuidado, continuando com a moto ligada, indo bem pelo extremo da margem onde existia uma pequena elevação.

Mantendo baixa aceleração e empurrando vagarosamente a moto, aos poucos ela ia passando sem atolar. Ao passo que o piloto atolava até às canelas. Os sapatos e meias não ficavam no atoleiro porque ele já os havia tirado desde que saíram da pensão, assim como o garupa também.

Aos caminhoneiros que ali estavam (uns de um lado e outros do outro lado do atoleiro sem poderem atravessar com os veículos) e que já os haviam visto passar no dia anterior, curiosos por verem a garota gemendo, perguntavam qual o motivo. Para preservar a menina falaram tratar-se de apêndice supurado e a estavam levando urgente para o Hospital. Depois disso ouvirem, mais que depressa o pessoal fez tudo para ajudá-los na travessia, a qual foi rapidamente realizada graças a essa grande ajuda.

Dali por diante foi-lhes possível continuar sem maiores problemas, e com tranquilidade chegaram ao Hospital onde foram logo atendidos por diversas enfermeiras, surpresas e assustadas com a chegada deles montados uma moto toda suja de barro e ainda por cima com uma pálida garota entre os dois ocupantes.

Após ouvirem o relato, verem a foto e documentos da menina, assim como a carta feita pela mãe com nomes, endereço e tudo mais, enfermeiros levaram-na urgentemente para dentro e passaram a cuidar dela.

Aguardaram um pouco, oportunidade que o piloto aproveitou para limpar seus pés, pernas e roupas.

Após terem sido informados de estar tudo resolvido, tiveram permissão para írem até a enfermaria onde ficara a menina. Vendo que estava finalmente tranquila, dormindo, que não mais gemia e eles nada mais tinham a fazer ali, agradeceram a generosidade do pessoal e saíram dizendo que avisariam à família.

No caminho de volta os caminhoneiros os elogiaram pelo feito e preocupados que ficaram com o problema da menina, perguntaram pelo resultado. Sem parar disseram ter corrido tudo bem, melhor até do que esperavam, graças à ajuda deles. E assim passaram com vivas e tapinhas nas costas (de um lado e do outro do atoleiro) enquanto andavam devagar e sem parar, inclusive por estarem os dois com os pés descalços.

Ao encontrarem a mãe da garota, informaram-na que tudo correra bem, falaram das urgentes e necessárias providências tomadas no hospital, e que felizmente ela já estava sendo tratada numa enfermaria e fora de qualquer perigo. E pelo que ainda puderam ver, já estava sem dor e até sua cor mudara de amarelo para rosa (embora um rosa ainda um pouco esmaecido).

A senhora não sabia como agradecer. Quis pagar-lhes pelo gasto que tiveram e o tempo que perderam, o que recusaram. Mas devido à sua insistência, o piloto então falou: “Bem, já que a senhora está disposta a pagar tudo... Aí ela ficou aguardando o que eu ia dizer...

Pois muito bem! A senhora então não vai nos cobrar o café da manhã que tomamos.“

Enquanto apanhavam suas coisas para recolocarem na motocicleta, a senhora imediatamente preparou-lhes alguns sanduíches e desejando-lhes muitas felicidades, despediu-se.

O que aconteceu com a menina daí por diante, não souberam. Mas com toda certeza, dessa ela escapou bem!

(Texto extraído do livro Motociclistas Invencíveis)

João Cruz é autor do livro Motociclistas invencíveis

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Comentários (2)

  1. Hugo

Parabéns pela história, pelas coragem de levar a garota e de fazer essa viagem. Uma curiosidade: que moto era?

  1. aluisio

Este é o espirito do verdadeiro motociclista.

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