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Cruel Insensibilidade

Na trajetória de volta para o Rio de Janeiro, colocamos gasolina na moto com os últimos Cr$40,00 (cruzeiros) que tínhamos e continuamos pela estrada Rio-Bahia com chuva. Chuva essa que já está chateando muito. Ela está tão insistente e intensa, que a caatinga agora era só água, tendo lugares onde a estrada, por ficar mais alta, ajudava a formar lagos em ambos os lados. E sobre a água deste lago só se vê um pouco da copa das pequenas árvores e arbustos, antes marrons quando nós passamos na ida, agora na volta encontravam-se verdinhas.

Observamos que ainda tem muito caminhão parado pela estrada por estarem quebrados ou atolados, e quase todos Mercedes Benz. Já os caminhões Scania ou Volvo é raro encontrar um enguiçado ou atolado. É que eles são precavidos quanto aos lamaçais e enchentes. Os FNMs então, nem se fala, pois não se vê um sequer enguiçado ou quebrado, tendo em vista que o seu motor não permite que corram muito. Mas vimos alguns atolados, embora também tomassem os devidos cuidados. O motor tem muita força, porém não tem velocidade, por isso o caminhão resiste mais em pisos ruins, mas não evita que atole.

Por falar em caminhão enguiçado, descobri uma maldade muito grande que certos motoristas criminosos e principalmente maldosos fazem com pessoas pobres, retirantes que deixam tudo para trás em suas terras pela busca de sobrevivência em algum suposto eldorado. Eldorado esse que vão buscar nas grandes cidades como Rio, São Paulo e principalmente Brasília que vai ser inaugurada agora em abril de 1960.

Aconteceu que desde nossa ida, quando ainda íamos do Rio de Janeiro nordeste acima, havia reparado na estrada, em sentido contrário, grupos de pessoas (homens, mulheres, crianças e idosos, certamente famílias) que estavam na beira da estrada protegidos por tendas improvisadas contra sol e chuva, após serem deixados ali por motoristas de alguns caminhões. Calculei serem pessoas que estavam sem dinheiro, comida, conforto e segurança, num local completamente estranho a eles.

Sem dinheiro porque o pouco que ainda tinham da economia que fizeram, pagaram adiantado o frete do caminhão pau-de-arara que os deixou ali, pois esse pagamento adiantado era condição “sine qua non” para qualquer retirante poder viajar.

Ao ver agora na volta um desses acampamentos, por curiosidade resolvi parar até aproveitando para esticar um pouco as pernas.

Então, eu e o garupa nos dirigimos a uma das barracas e puxamos conversa com pessoas que nela estavam, indagando qual a razão de se encontrarem naquela situação. Contaram que o moço do caminhão que os está levando para a cidade grande teve uma peça do caminhão quebrada e então foi com o caminhão comprar outra numa cidadezinha mais atrás.

Estranhando muito este fato, fiz apenas duas perguntas:

Por acaso vocês já pagaram a passagem a ele? E por que não foram todos no caminhão na tal cidadezinha, já que o caminhão foi?

Um senhor então respondeu que antes de embarcarem já haviam quitado todas as despesas, inclusive para a comida; E que não foi possível irem junto porque, não podendo o caminhão levar peso demais, ficaram ali esperando o motorista voltar para apanhá-los.

Aí, imediatamente pensei comigo mesmo: “ Voltar para apanhá-los esse motorista não voltará nunca. Haja vista estarem há vários dias naquele lugar após terem sido abandonados ao relento por ele. Como pode ter gente tão inocente e ao mesmo tempo outras tão maldosamente espertas, insensíveis com a necessidade e a dor do semelhante. Sem se falar no sacrifício de crianças, idosos e pessoas que até pelas consequências ficam doentes. Isto não é somente esperteza maldosa... é desumanidade! “

Escutei tudo o que aquele senhor falou sem manifestar qualquer opinião minha por entender não ser possível resolver aquela situação. Lamentei o fato, fiquei com pena deles, chamei o garupa, que ficou sensibilizado e revoltado com tudo aquilo, e fomos embora.

Agora, refletindo sobre esse fato, digo:

“Eu que por lá passei, que vi as condições da terrível estrada Rio-Bahia de terra, e que tive também a oportunidade de conversar com os retirantes na busca do seu ‘eldorado’, pude sentir o ‘pulo no escuro’ que esses pobres coitados estavam dando nos seus derradeiros desesperos a fim de fugirem da seca... da fome... da miséria.

E ainda havia mais, pois além dos riscos, do sofrimento que passavam na viagem, dos possíveis acidentes e até a possibilidade de morrerem pelo caminho, não sabiam se seriam bem sucedidos no local para onde se dirigiam. Sem falar da ‘armadilha’ acima narrada, quando famílias ficavam abandonadas na estrada após serem saqueadas por alguns maldosos motoristas dos caminhões pau de arara, do pouco que ainda lhes havia restado para sobreviver.

Mas apesar de tudo isto, com determinação continuavam enfrentando e vencendo todos os obstáculos e sofrimentos.

Por tudo isso que presenciei, afirmo que são guerreiros e guerreiras que deixam para trás seu humilde lar para enfrentarem o desconhecido sem que tenham qualquer segurança.

Realmente, são raras as pessoas que têm coragem para tomar atitudes tão radicais assim. Mas felizmente muitos tiveram um final feliz.

Trecho do livro Motociclistas invencíveis, de João Cruz
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