Viagem de moto histórica - Brasil

Muriaé (MG) - Desde o dia anterior já vinham reparando estarem passando por eles, em sentido contrário, vários ônibus e caminhões em péssimo estado de conservação (chamados pau-de-arara) levando retirantes do nordeste, interessados por tentarem vida melhor nas grandes cidades.

Notaram, também, que conforme avançavam pela estrada, cidades e povoados distanciavam-se cada vez mais uns dos outros. O mesmo acontecendo com Postos de gasolina e demais serviços fornecidos nas estradas necessários para prestação de socorro ou manutenção dos veículos, inclusive alimentação aos viajantes. Sem falar nas pessoas, moradoras das localidades que na época não tinham luz, água encanada, ou qualquer forma de saneamento básico. Viviam todas elas em povoados abandonados e deixados à própria sorte.

Depois de muitos quilômetros percorridos, a certa altura pararam para socorrer um ‘irmão’ motociclista que estava na estrada por causa de um pneu que havia furado e em consequência disso caíra e torcera o pulso, impedindo que pudesse fazer qualquer coisa pela moto.

Vendo-o aguardando auxílio, foram ajudá-lo, não só pelo pulso machucado, mas pela falta de recursos para consertar a moto. Por isso estava ele pensando em arranjar “carreto” para levar a moto até um borracheiro.

Dizendo-lhe que o problema seria rapidamente resolvido, piloto e Fernando tirando a roda da moto sacaram a câmara de ar furada trocando-a pela câmara reserva que eles tinham levado. Recolocando o pneu no aro encheram a câmara com a bomba de pé e encaixaram a roda no lugar. Após tudo terminado avisaram ao rapaz para consertar logo a câmara furada porque a colocada era muito velha. Piloto disse que ele até poderia ficar com ela porque iria comprar outra em Caratinga, cidade que já estava próxima.

Essa parada para prestarem esse socorro foi muito oportuna por terem visto um corte na lateral do pneu traseiro da moto, causado possivelmente por uma pedra na estrada, fato que deixou o piloto de sobreaviso, tendo em vista que somente as lonas (estufadas) estavam impedindo que a câmara saísse pelo corte.

Rodando pela cidade à procura de onde poderiam comprar uma câmara de ar nova, depois de rápida procura acharam e compraram. Guardando-a numa das pastas presas nas laterais partiram com a intenção de pernoitarem em Governador Valadares.

Por estar chuviscando um pouco e a terra da estrada ter ficado umedecida, pegaram pouca poeira e nenhum mosquito os incomodou em todo o trajeto até Governador Valadares. Mas como perfeição não existe, aconteceu do dínamo da moto enguiçar próximo ao povoado de Inhapim, não mais fornecendo energia à bateria. Como a bateria era só utilizada para luzes e buzina (que não tinha), não deram grande importância ao fato.

Chegaram a Governador Valadares exatamente às 19h.

Por estarem muito cansados, preferiram ir logo descansar no primeiro hotel ou pensão que aparecesse pela frente, razão de ficarem no primeiro que encontraram ali mesmo na beira da estrada.

Governador Valadares (MG) - Pela manhã, ao acordarem, fizeram o desjejum. Mas ao pegaram novamente a estrada, de imediato viram o lamaçal em que ela se transformara devido à chuva que caíra durante a noite. Situação essa que iria dificultar bastante a viagem.

Nesse momento surge na mente do piloto a observação feita pelo seu sócio, Borges, sobre as dificuldades que ele iria enfrentar.

Realmente, para quem está habituado pilotar no asfalto e de preferência em dias com sol, pegar chuva, lama e um frio que entra por algum orifício do blusão atravessa a pele e vai até aos ossos, o “infeliz” estranha bastante. Fica ainda pior se tiver as pernas geladas e também os pés, em consequência das calças molhadas e dos sapatos encharcados com a água que escorre das calças. Aí, então, o negócio se torna “dureza”, dando vontade realmente de largar tudo e voltar.

Mas deixemos de lado “negatividades” e continuemos na luta, pensou o piloto.

Nesse trajeto para Teófilo Otoni, além da intempérie enfrentada tiveram dois incidentes:

Um deles foi com a alça de couro de uma das pastas de ferramentas que arrebentou e tiveram de substituí-la por arame; o segundo foi o quadro elástico da moto que rachou na parte traseira, mas como não estava prejudicando e nada seria possível fazer de imediato, deixaram para soldá-lo na próxima cidade.

E dentre outras coisas que aconteceram, um fato inusitado ocorreu: Vez por outra, desde quando pegaram estrada de terra, através do caminho cruzavam com bois, cavalos, cabras, jegues e outros animais. Passavam tranquilos por todos eles. Porém hoje aconteceu diferente. Num determinado ponto da estrada em que cruzavam com mais uma boiada, o “líder” os estranhou e eles não sabiam por qual razão. Então, enquanto a boiada passava por eles em sentido contrário, o “líder” mantinha-se parado na frente deles, encarando-os e balançando o rabo. Estranhando a situação eles pararam também, mas sentiam que o touro ainda estava irritado ou temeroso por alguma coisa (ciúme das vacas não deveria ser porque os dois nem olharam para elas). Mediante tal situação acharam que o touro poderia atacá-los a qualquer momento. Eram apenas alguns segundos de tensão, mas pareciam horas. E para piorar ainda mais o caso, a boiada era grande.

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Além dessa “interminável demora psicológica”, para fugir dele só seria possível indo para a caatinga, exatamente pelo lado que ele estava, porque pelo outro lado onde a boiada passava era como se houvesse um muro em razão da quantidade de animais juntos. Nesse momento, o ‘bendito’ Fernando teve uma luz e falou:

“Acho melhor desligar o motor. Pode ser que o touro esteja é assustado com o barulho da descarga livre da moto”.

Nem havia acabado de falar e a moto foi desligada.

Dito e feito! Com o motor desligado o bicho se acalmando parou de agitar o rabo de um lado para outro e passou tranquilamente por eles a fim de juntar-se à boiada que seguia adiante.

Deveria ser um touro estressado, ou então não estava no seu melhor dia, disse o piloto.

Com toda certeza foi um tremendo susto pelo qual passaram.

Imaginou? Um bichão daquele, distante apenas alguns metros; não sabiam se ele estava zangado ou enciumado por alguma coisa; caatinga dos dois lados da estrada e que devido às pequenas árvores miúdas e juntas não lhes permitiria fugir com a moto. O que fazer numa situação dessas?

Então, assim que o touro passou por eles a moto foi quicada. Muito barulho com a descarga aberta da moto foi feito para provocar o touro, mas partiram antes que ele pudesse voltar.

Esclarecimento:

Caatinga é um tipo de mata muito peculiar e existe somente no Brasil. São 850.000 km² pelo nordeste desde o Ceará, com pequena parte em Minas Gerais. Região, onde o conhecido cangaceiro “Lampião” e seu bando se esconderam e morreram.

Continuando a narrativa, chegaram a Teófilo Otoni às 15h30.

Agora, a preocupação era achar local onde tivesse solda elétrica para poderem consertar o quadro elástico que rachara.

Após algumas informações e buscas que fizeram (numa cidade grande e estranha, onde não se conhece ruas, comércio, pessoas, tudo fica mais difícil) felizmente conseguiram achar uma oficina que possuía a tal solda elétrica. Fernando, que sabia como fazer e tendo autorização do proprietário, aplicou a solda.

Devido à demora em achar esse local para efetuarem o conserto e de não terem luz para viajarem à noite resolveram pernoitar ali mesmo em Teófilo Otoni.

Seus corpos já começavam a demonstrar acúmulo de fadiga. Mas acreditavam que ainda daria para aguentar bastante.

 

Teófilo Otoni (MG) - Acordaram cedo, completaram o tanque de gasolina e esticaram a corrente da moto para as 7h partirem otimistas e bem dispostos, com o objetivo de atravessarem a fronteira de Minas Gerais com a Bahia e chegarem a Nova Conquista, já em território baiano.

A cada dia que passava a estrada ia ficando mais severa com eles e isso porque, quando o tempo está seco, sua insuportável e perigosa poeira se espalha esvoaçando por toda a estrada; ao anoitecer, a mosquitada se reúne e aproveita para ficar dando porretadas e alfinetadas nas pessoas; mas quando chove insistentemente, como agora, a estrada se torna catastrófica porque os buracos e valas não são vistos devido â água que inunda a estrada, havendo trechos perigosos onde a lama, com mais de um palmo de profundidade, atola veículos, causando outros problemas.

A região é muito montanhosa, com aclives bastante acentuados e, em consequência dessas chuvas e o esforço das trações dos veículos para subirem os aclives ou frearem nos declives íngremes, profundas valas surgem em toda extensão da estrada. Sem falar dos perigosos sulcos enviesados (feitos pelo escorrimento da água das chuvas), que se uma roda da moto, principalmente a dianteira, entrar em um desses sulcos é tombo na certa.

No subir e descer montanhas e observando com cuidado a estrada, eis que ao chegarem numa elevação superior a muitas outras que estavam adiante, o piloto teve a felicidade de avistar um horizonte espetacular e então pensou:

“Que maravilha! Um quadro indescritível tal sua magnitude. Nesse momento vejo somente morros e verdes matas, nada mais, a não ser a terrível chuva que tornava bem verde essa natureza pura, mas deixava lamacenta a estrada.

Os morros se apresentavam imponentes, austeros e fortes; as matas ostentavam um verde maravilhoso através das belas e frondosas árvores; “e quanto oxigênio puro para nós! Isso é mais delicioso do que qualquer perfume raro. É vida, muita vida! É a visão da mãe natureza desnudada na sua mais ampla simplicidade.”

Mas se por um lado essa visão se apresentava espetacular, com forte sensação de segurança e bem estar, por outro essa mesma vista tornava-se assustadora e ele descreve por que:

“Quando do alto desse morro admirei esse deslumbrante espetáculo, virtualmente vi também uma estrada infinitamente reta subindo e descendo morros até desaparecer na linha do horizonte onde a vista já não mais a alcançava”. Nesse momento, com sentimento de leve insegurança, disse para mim mesmo: “Quanto mais ainda andaremos debaixo do sol escaldante, da poeira incomodativa, da chuva que torna a lama perigosa e do frio por demais intenso no alto desses morros”?

Sentindo nesse momento a incrível semelhança desse fato com o que ocorre em nossas vidas, o piloto conjecturou:

“Essa estrada que se descortinava à sua frente, momentos com subidas e outros com descidas, ocasiões com muita poeira e outras com lamaçais é o reflexo da nossa existência nesse mundo. Vejo esta semelhança por existirem momentos onde tudo nos transcorre com facilidade e em outros momentos só encontramos dificuldades; há ocasiões de sermos bem sucedidos comercial e socialmente e em outras oportunidades acontecer de cairmos devido algum insucesso; ora adoecemos, ora estamos totalmente saudáveis; e por fim a eterna expectativa de nós não sabermos até onde e como chegaremos nessa estrada barrenta de agora e a eterna expectativa que toda humanidade tem por querer saber quando irá morrer na estrada da vida que todos nós, mal ou bem, trilhamos.”

Desligando-se desse pensamento e voltando à realidade, o piloto percebeu a importância do arrojo e do destemor para encararmos os desafios e que para vencê-los necessitamos de calma, inteligência e muita perseverança, que nada mais é do que ter muita fé.

Retornando às estradas de Minas Gerais, continuaram seguindo em direção à Nova Conquista (BA).

Por volta do meio-dia passaram pela cidade de Águas Vermelhas e somente as 19h chegaram a Divisa Alegre, onde fizeram uma parada, aproveitando para abastecer a moto e carimbar o caderninho no último Posto Fiscal de Minas Gerais.

Conforme anotação feita no Diário de Viagem, além deste Posto em Divisa Alegre já haviam passado por Águas Vermelhas, Teófilo Otoni, Governador Valadares, Caratinga, Muriaé, Leopoldina e Itaipava, isso retroativamente até o Rio de Janeiro.

Moradores que estavam naquele momento batendo papo próximo ao Posto Fiscal, escutando casualmente qual seria o destino, alertaram-nos que o lugar por onde iriam passar era perigoso por ser muito alto, totalmente ermo e nesse trecho da estrada não ter movimento à noite.

Escutando a recomendação agradeceram e saíram calmamente.

Como existe o ditado “seguro morreu velho”, o piloto tirou a pistola da maleta, entregou-a ao Fernando e recomendando:

“Vá com ela engatilhada na mão, pronta para disparar, mas sempre apontada para baixo. Qualquer perigo que surja, aí sim, levante mire e atire. Atire mesmo!” Após a recomendação, o piloto ficou tranquilo por saber que se fosse necessário ele atiraria mesmo.

Tudo pronto e resolvido partiram imediatamente, tendo em vista que a intenção era atravessar a fronteira com a Bahia e chegar logo a Nova Conquista, que já estava bem próxima.

Nesse percurso também enfrentaram muitos mosquitos, mas desta vez protegeram o rosto colocando o cachecol sobre o nariz como se fosse máscara.

Viajaram à noite, sem luz para iluminar o caminho porque, estando o dínamo ainda enguiçado, a bateria perdera a carga. E por não terem encontrado quem o consertasse, ficou assim mesmo.

O céu estava cravejado de estrelas. O luar, que maravilha! O chão, de tão iluminado parecia um espelho, facilitando que vissem grande parte da estrada. A claridade estava realmente tão intensa, que até os vagalumes devem ter ficado envergonhados por acenderem seus “pisca-piscas” pelo fato das suas luzinhas ficarem esmaecidas com aquele forte luar. E com essa maravilha à frente deles, pra que farol? Farol pra quê? Perder essa belíssima visão noturna no interior do Brasil isenta de qualquer iluminação artificial, sem trânsito e sem poluição? Isso é místico, é raro, é sensacional!!!

Por ser muito alto e frio o local onde estavam naquele momento, todos tremiam convulsivamente: Piloto, Fernando e até a moto, que por sua vez estremecia devido à trepidação do motor.

O céu, feericamente iluminado, parecia estar pouco acima das suas cabeças dando-lhes a impressão de que se levantassem os braços tocariam as estrelas.

Tranquilos e sem qualquer problema com a estrada pela falta de farol ou com prováveis bandidos conseguiram entrar na cidade de Nova Conquista às 20h do dia 18 de fevereiro.

Obedecendo novamente o ditado “seguro morreu velho”, o piloto tratou imediatamente de apanhar a arma que estava com o Fernando, antes que acontecesse dele fazer alguma bobagem com ela e guardou-a na maleta.

Ah..., sim! Tendo falado na arma, chegará um momento onde novamente ela surgirá e a notícia será bem hilária.

Motociclistas Invencíveis

Semanalmente vamos publicar, aqui no Viagem de Moto, capítulos do livro Motociclistas Invencíveis, romance extraído de uma viagem com moto ocorrida em 1960.

Conduzindo na garupa da moto um amigo, piloto sai do Rio de Janeiro por estradas de terra a fim de encontrar sua linda namorada, que saindo de Itabuna (BA) para morar no Rio de Janeiro, de repente, da noite para o dia, desaparece sem deixar rastros. Chegando a Itabuna, piloto descobre que ela fugia de assassinos (contratados para matá-la), pelo fato dela ser testemunha do assassinato de seu pai, ex-cacaueiro na região.

Por acontecerem muitas aventuras e novos amores pelo caminho, foram até a Paraíba.

Enfrentaram sol, poeira, chuva e lama. Ajudaram, foram ajudados, acontecendo inclusive que, por levarem uma garota (estava num leito de morte) entre eles dois até ao hospital, salvaram sua vida. Em si, a história mostra como eram os motociclistas Nos Deliciosos Anos Dourados.

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