Nesse dia eu sairia definitivamente da região do Himalaia e seguiria pelas planícies da Índia em direção ao oeste. Eram dois os objetivos dessa etapa da minha viagem de moto: conhecer o Templo Dourado Sikh e assistir à cerimônia de troca da guarda na fronteira entre a Índia com o Paquistão.

Acordei com as buzinas na rua em frente ao hotel, como aconteceu na manhã do dia anterior. Um claro sinal de que estava de volta definitivamente à rotina das cidades indianas e longe da tranquilidade das montanhas.

Antes de sair do hotel, pesquisei no mapa do Google o caminho que deveria seguir e memorizei. O grande problema ocorreu ainda dentro de Dharanshala, que apesar de ser uma cidade pequena, principalmente para os padrões indianos, foi construída na encosta de uma montanha e as ruas (chamadas lá de estradas) tem um traçado irregular, confundindo um pouco quem não conhece bem o lugar. Iniciei a viagem por volta das 8h e acabei entrando em uma rua que me levou até um bairro com casas de alto padrão, parecidas com as de condomínio de luxo que vemos no Brasil, mas com imensas áreas verdes. O que achei mais interessante foi que várias das casas tinham placas na frente indicando o nome e o cargo do seu morador. Por exemplo: Fulano de Tal, Engenheiro Chefe do Subdistrito de Manutenção de Estradas. Beltrano, Juiz da Magistratura do Distrito de Dharanshala.

Voltei e achei o caminho certo. Até a cidade de Pathankot, a estrada era na maior parte estreita, cheia de curvas, com asfalto precário e esburacado. Passava no meio de uma floresta, mas com muitas casas construídas às suas margens.

Viagem de moto pela Índia - Golden Temple

Saí do hotel sem antes fazer um lanche. Passei em uma padaria, mas ainda não tinham nada para vender. Segui para a estrada e alguns quilômetros depois, perto da cidade de Kangra, passei em frente a um belo hotel com um restaurante muito bacana no térreo. Parei no lugar. Tudo muito organizado e limpo, tinha um balcão refrigerado com vários tipos de pães e cremes. Vi um pão redondo e perguntei para o garçom o que era, mas ele não falava inglês. Veio outro me atender, mas falava muito mal. Perguntei se era apimentado e ele respondeu que não. Pedi um e sentei em uma mesa próxima. O garçom pegou o pão, colocou em um prato e quebrou a parte de cima. Era apenas uma casca. Depois começou a colocar cremes, frutas e mais algumas coisas que não sei o que era. Parecia em sorvete enfeitado. A parte de cima parecia uma coalhada doce e embaixo tinha um molho com gosto levemente apimentado. Apesar de diferente, estava gostoso.

Continuei viagem e alguns quilômetros depois acabei errando o caminho, mas logo percebi, voltei e peguei o caminho certo. O tempo estava bom, quase sem nuvens, mas uma névoa cobria o horizonte. E fazia muito calor. Usava a jaqueta de verão e luvas de couro curtas.

A estrada melhorou, mas passava dentro de cidades quase que emendadas. Como eu bebia água o tempo todo durante a viagem, parava muitas vezes para fazer xixi, mas nesse dia tive dificuldades para encontrar lugar para parar.

Cheguei a Amritsar pouco antes das 14 horas. Uma cidade enorme, com trânsito maluco, muitas obras nas vias, viadutos de trânsito rápido, tuk tuks e motos buzinando o tempo todo. Parei debaixo de um viaduto, num lugar onde o trânsito era mais tranquilo, e pesquisei no celular, que agora funcionava e conseguia acessar a internet. Vi que não estava longe do Golden Temple e havia muitos hotéis por perto. Entrei em uma rua onde havia vários deles próximos. Entrei em um que parecia bom. Perguntei o preço e achei caro, 40 dólares a diária. Baixaram para 32 depois de uma negociação. Pagos adiantados.

Viagem de moto pela Índia - Golden Temple

Comentei que queria conhecer o Golden Temple e ir até Wagah para assistir à cerimônia e o recepcionista, Manoj, disse com um inglês difícil de entender que a cerimônia não estava sendo realizada há alguns dias por causa da tensão na região da Caxemira e por ameaça de atentado terrorista. Fiquei decepcionado.

Ele me disse que o melhor horário para conhece o Golden Temple era à noite. Então me preparei para ir para lá no fim do dia. Depois de instalado, desci para perguntar onde comer alguma coisa. Manoj me indicou uma rua próxima onde havia vários dhabas / restaurantes. Comi uma comida típica bem apimentada.

Voltei ao hotel e perguntei onde poderia trocar dólares por rúpias. Meu amigo disse que era longe e se ofereceu para me guiar até o lugar. Montamos na moto e ele foi me indicando por onde seguir. O trânsito maluco, engarrafado, cheio de carros, tuk tuks, motos, riquixás e bicicletas. Entramos em uma avenida muito movimentada pela contra-mão, com carros vindo em nossa direção e eu tendo que desviar, como vemos nos filmes. Achei que iríamos morrer, mas acabamos chegando à casa de câmbio. Depois de trocar o dinheiro um senhor me abordou na rua e disse que trocaria dólar por valor mais vantajoso, mas já tinha feito negócio.

Quando estávamos saindo do hotel para ir à casa de câmbio, eu montei na moto e quando fui ligar ela não pegou. Tentei várias vezes e nada. Era a primeira e única vez durante toda a viagem que a Royal Enfield dava um problema mecânico. Estava apreensivo, sem saber o que fazer, quando chegou um cara todo pintado e vestido com roupas coloridas e espalhafatosas, com um fumegador na mão e me pediu dinheiro. Eu não tinha quase nada de rúpias na carteira e levava apenas uma nota de 100 dólares escondida no bolso, a qual pretendia trocar. Disse para o cara que não tinha dinheiro e continuei tentando fazer a moto pegar. Ele olhou para a moto, colocou a ponta do dedo sobre o tanque e ela pegou como se fosse mágica. Não sei o que aconteceu, mas peguei todas as rúpias que tinha na carteira e dei para o cara. Sabe-se lá?

Mais tarde peguei um tuk tuk e fui para o Golden Temple. As fotos mostram como é maravilhoso o lugar. Retornei depois das 10h da noite, também de tuk tuk.

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