Mototerapia

Mototerapia, Doutor ???

E ele confirmou. Afinal, após o check-up ficou evidente que o estresse estava matando Carlos. Sua pressão alterada, a diabetes nervosa, dores pelo corpo, depressão... eram todos reflexos físicos da chegada do limite psicológico. O corpo já vinha avisando que não agüentaria mais tanta negligência com horários e alimentação, mas quando a taquicardia apareceu seguida das dores características de um enfarto, não deu pra ignorar.

O médico, rara mistura de profissional com idealista, teve o cuidado de pedir a presença da esposa Judite. Diante de ambos, esclareceu o tratamento, os remédios, os cuidados e arrematou:

“Carlos, me diga uma coisa que você adoraria fazer no seu dia-a-dia ?”

“Andar de moto ! Sonho com isso há anos...”

Sem pestanejar, o receituário foi escrito e quando lido pelo paciente, a perplexidade traduziu-se em palavras. 

Após notar o impacto da idéia, o médico continuou e foi logo dirigindo-se a Judite, tentando pescar algum tipo de rejeição. Não havia. O casal parecia aliviado pela idéia ter partido de outra pessoa. Fingiram levar na brincadeira, mas o assunto foi reconduzido à seriedade. Era realmente importante que Carlos encontrasse uma válvula de escape.

Saíram do consultório e já no carro começaram a conversar sobre o assunto, afinal Carlos sequer era habilitado ao motociclismo. Judite também queria aprender. Nunca revelara, mas sempre romanceara essa vontade de sentir-se como uma “amazona” dos tempos modernos. Comprariam revistas, visitariam lojas e estudariam os opções. Mas com certeza comprariam a moto !

Se foi o mito, os comentários das revistas, o estilo ou tudo junto, não importa. O importante é que um mês depois já estavam esperando a chegada de sua eleita, uma Sportster 883. Enquanto isso as aulas práticas eram vencidas com facilidade e entusiasmo. Motociclismo tornou-se o assunto deles e logo perceberam que nem todo mundo se afinava com isso. Existia certa rejeição por parte de alguns parentes e amigos, que fomentaram a princípio calorosos debates, mas que infrutíferos, deram lugar ao silêncio. Sentiam vontade de estar perto de quem os compreendesse...

Contaram os dias desde que se habilitaram até a chegada da moto. Parecia uma eternidade, mas finalmente ela estava em casa, licenciada e pronta pra rodar, mas... e o medo ? Já tinham lido o manual várias vezes, testado todas as lâmpadas, a buzina, os freios, dado partida, montado, engatado marcha e sentido a embreagem, porém o receio ainda predominava

“Será que consigo andar nessa moto tão grande e pesada ? E se for muito forte ?”

A excitação foi maior e Carlos postou-se sobre sua linda máquina, ligou-a e timidamente saiu, os pés resvalando no chão por vários metros e depois postados corretamente nas pedaleiras. Quantos quilômetros andou ? Quanto tempo se passou ? Nem percebeu.

Mas quando voltou, Judite saiu logo ao seu encontro e também quis pilotar. E lá se foi ela, sentindo imenso prazer de ter o vento acariciando seu corpo naquele belo fim de tarde ornado por avermelhado pôr de Sol.

Muito ainda rodariam, sozinhos ou em casal, adornando e adequando a moto com bolsas para viagens e trabalho, encosto traseiro para o conforto da garupa,, curtindo cada detalhe, cada momento, cada programação das pequenas incursões pelas cidades vizinhas, registrando tudo em fotos e escritos, mantendo viva a recordação dos bons e novos momentos de intimidade que as estradas e pousadas lhes proporcionavam. Sentiam-se especiais, agraciados pela descoberta de um novo mundo.

Foi na revisão de 8.000km da moto, que Carlos deteve-se a ler as revistas Enthusiast e Hog Tales. Percebeu que as fotos mostravam situações muito parecidas com aquelas que ele mesmo fotografara na companhia de Judite, exceto pelo fato de que os cenários eram norte-americanos e de que os grupos eram formados por vários casais. Ficou encantado com aquilo, afinal os gringos tinham grupos de motociclistas que saiam todos juntos, tendo como afinidade suas motos e a necessidade de partilhar a estrada. Seria tão bom se houvesse isso por aqui, pensou. Logo encontrou outra revista, desta vez em português e lendo-a deu-se conta de que havia, sim, grupos de motociclistas, motoclubes e afins aqui mesmo no Brasil e que a própria Harley-Davidson mantinha um grupo que organizava passeios e eventos entre os proprietários de seus produtos. Descobriu também, que fora automaticamente associado a tal grupo quando adquirira sua moto nova. Ficou surpreso e feliz com as perspectivas.

Novidade contada, Judite também se empolgou e logo aceitaram o convite subseqüente da concessionária para um “café da manhã” no sábado. Ali sem dúvidas encontrariam aquelas pessoas que tanto buscavam, aqueles que como eles próprios haviam encontrado sobre duas rodas o caminho da felicidade.

E foi assim, entre sustos e surpresas, entre receios e superações que Carlos e Judite se prepararam pra a deliciosa aventura de pertencer ativamente à grande família motociclista.

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