Acordei às 4h para sair o mais cedo possível para percorrer os 246 km que separam Caiena de Saint Laurent du Maroni e pegar a balsa que atravessa o rio que separa a Guiana Francesa do Suriname e que sai às 9h.

Assim que levantei, senti que a indisposição estomacal que começou em Macapá ainda não tinha passado. Por isso acabei demorando mais que o que tinha previsto para sair.

Quando desci ao saguão com a bagagem, assustei o vigia, que deu pulo do sofá onde estava sentado. Perguntei se ele falava português ou inglês e respondeu que não. Falei “motô” e ele entendeu, já que estava carregado com capacete, jaqueta e baú nas mãos. Ele apontou para a porta da garagem e eu perguntei em inglês se tinha água, fazendo gestos de levar um copo à boca. Ele pareceu não entender, mais depois de alguns segundos saiu correndo e voltou com uma garrafinha de água mineral. Perguntei quanto também com gestos e ele fez sinal que não. Agradeci: “merci”.

Levei o baú e instalei rapidamente na moto. Sempre observado pelo vigia vesti a jaqueta, coloquei o capacete e quando ia subir na moto ele falou: -“vrum, vrum, no”. Entendi. Não era para ligar o motor no pátio para não fazer barulho. Empurrei a moto até a rua, liguei, despedi do amigo com um sinal e às 4h43 eu estava partindo para minha primeira jornada do dia.

Em poucos minutos as ruas desertas e retas da cidade me levaram até a estrada. Havia algum movimento no sentido contrário ao que eu seguia e poucos no mesmo sentido.

Antes e durante a viagem, alguns amigos e conhecidos tinham me advertido para não ultrapassar os limites de velocidade dentro da Guiana e do Suriname, porque a multa era altíssima e haviam radares instalados em vários lugares. Que quando chegasse à fronteira para sair do país, se tivesse sido flagrado em alguma infração de trânsito, teria que pagar uma multa que seria de valor elevadíssimo.

Com isso na mente, se saber se acreditava ou não, segui um pouco acima do limite que era de 80 km/h. Tinha viajado pouco mais de meia hora e passava por uma cidade chamada Tonate quando um clarão pipocou do meu lado direito. Fiquei sem saber se tinha sido atrás ou na frente da moto. Com essa dúvida, segui viagem pensando se iriam me barrar na fronteira.

Quando amanheceu tive que ficar mais atento porque centenas de crianças uniformizadas e carregando mochilas andavam ou esperavam o ônibus no acostamento.

Vi pelo retrovisor o sol surgindo às minhas costas e me deu vontade de parar para tirar fotos, mas pensando no horário apertado, resolvi não parar.

Viagem de moto Guiana Francesa

A viagem até Saint Laurent du Maroni foi tranquila e sem percalços. Naquela cidade peguei um trânsito intenso e lento em uma rua de mão e contramão que não permitia ultrapassagens me deixando aflito com o horário.

Cheguei à imigração meia hora antes. O prédio simples mais parece um armazém com um guichê e uma cancela de cada lada. Parei a moto ao lado e fui ao guichê. Uma moça falou bonjour quando cheguei. Respondi bonjour e perguntei em inglês se era ali que fazia a saída da França. Ela respondeu afirmativamente com a cabeça e pediu o passaporte. Olhou, folheou, bateu o carimbo e me devolveu. Só isso? Voltei para a moto e levei até a descida da rampa onde o barco iria atracar. Um senhor me cumprimentou e eu respondi. Perguntei o horário que o barco chegaria e ele disse que provavelmente antes das 9h. E foi o que aconteceu, ele trazia alguns carros e vans, que desceram rapidamente. Um senhor me fez sinal para que eu levasse a moto para o barco. Estacionei na frente e fiquei esperando. Um senhor e um rapaz que trabalham no barco, Patrick e Laurent, vieram olhar a moto. Patrick me perguntou de onde eu era e quando respondi Brasil ele começou a falar um português bem claro. Perguntei e me falou que era francês, filho de brasileiro com haitiana e nascido na Guiana Francesa. Já foi várias vezes ao Brasil. Laurent era o mais interessado na moto. Perguntava em francês para o Patrick que servia de interprete. Me mostrou fotos da sua moto, uma Yamaha que não consegui identificar.

Viagem de moto Guiana Francesa 06

Poucos minutos depois a balsa saiu, levando apenas a moto, eu e um passageiro.

Patrick me disse que por isso são poucas viagens por dia, pela baixa procura. Que só aumenta nos feriados. Numa das fotos tem os horários e dias que funciona.

Patrick ainda me deu algumas dicas sobre a passagem pelo Suriname.

Desci com a moto, estacionei em frente ao prédio da aduana, e entrei. Um rapaz carimbou meu passaporte rapidamente. Perguntei onde era o escritório da aduana e ele me indicou uma porta. Um rapaz me atendeu em inglês. Entreguei os documentos e ele perguntou se tinha o seguro. Como não tinha, me disse que deveria ir ao banco para contratar. Perguntei onde ficava e ele saiu comigo até a rua para apontar o caminho.

O banco fica numa esquina cerca de 300 metros de distância. Perguntei ao vigia e ele me indicou uma moça numa mesa. Entreguei os documentos e começou a digitar os dados, mas quando chegou no modelo, não tinha o da minha moto cadastrada no sistema. Perguntei se não poderia colocar uma nota e ela respondeu que não. Ligou para alguém, e pediu que eu sentasse em uma cadeira enquanto aguardava. Perguntei onde poderia fazer câmbio de euros por dólar surinamês e ela indicou que eu seguisse pela rua ao lado que encontraria . O Patrick tinha me falado que em qualquer supermercado que eu chegasse eles trocariam para mim. Entrei em um e negociei o valor com a caixa. Voltei para o banco e ainda não estava pronto. Esperei mais de uma hora de espera, até que me chamou. Paguei e voltei para a aduana com o documento. Outro agente me atendeu. Enquanto esperava, um rapaz me viu todo suado e me perguntou se queria uma das latas de energético que ele trazia nas mãos. Eu aceitei e perguntei quanto e ele disse que não precisava pagar.

Liberada a moto fui procurar o posto que o Patrick tinha me indicado. Não achei e segui para o que estava no GPS. Mão inglesa, mas rapidamente acertei a mão.

A estrada até Paramaribo é muito boa, velocidade máxima de 80 km/h que eu poucas vezes ultrapassei. Mas fui ultrapassado dezenas de vezes.\

Em Paramaribo, peguei uma avenida que estava com o trânsito pesado de caminhões lentos. Fui para o Hostel (guest house) que tinha pesquisado antes pela internet. Chegando lá, um jovem holandês de quase 2 metros de altura e com cara de surfista me atendeu. Pedi para ver os quartos. 15 euros uma cama em um quarto compartilhado e 30 o privativo. Banheiro comunitário. Sem ar condicionado e sem café da manhã Perguntei se tinha ventilador e ele respondeu que arrumava um para mim. Fiquei na dúvida se valia a pena dormir ali e pagar o valor pedido ou ir para um hotel onde poderia com certeza descansar melhor e ter privacidade. Resolvi ficar, mas quando fui buscar o baú o rapaz me falou que tinha errado e que o quarto já estava reservado. Pedi para usar a internet, localizei um hotel próximo e fui para ele. Paguei 59 dólares em um hotel com piscina, ar, estacionamento e um quarto e uma cama gigantes. Está acima do valor médio que eu tinha estipulado para as estadias, mas a cidade é muito cara.

Almocei no bar do hotel enquanto esperava liberarem o quarto. Um prato típico do Suriname, com frango e legumes. Muito bom. E caro. Uma garrafinha de cerveja local por 2,50 dólares.

Depois sai para caminhar pela cidade. Uma pena que não levei a câmera, apenas o celular. A região que caminhei é muito bonita.

Amanhã terei que sair antes das 5 horas para chegar à fronteira antes do horário de fechamento do portão.

Comentários (2)

This comment was minimized by the moderator on the site

Bacana Rômulo sempre é bom recuperar as energias, ainda bem que o hotel deixou voltar.

This comment was minimized by the moderator on the site

Bacana. Estou aqui torcendo para tudo dar certo. Aproveitando e lendo sobre esses lugares que só conhecia de mapa. Vai com Deus.

Seja o primeiro a comentar este artigo.

Deixar seu comentário

  1. Postando comentários como visitante. Cadastrar ou login na sua conta.
0 Characters
Anexos (0 / 3)
Compartilhar sua localização