Acordei no horário combinado com o Marcelo, fui fazer o desayuno e deci na garagem para ver as motos. Peguei um empregado do hotel sentado na minha moto e passei-lhe um sabão. Não sei se ele entendeu meu portunhol, mas ficou muito sem graça.

O Hotel que ficamos, El Dorado, é bem ruinzinho, quartos escuros com cheiro de cigarro, a pequena garagem está entulhada de objetos e pouco espaço havia para nossas motos. Tivemos que negociar com o chefe da cozinha um canto junto ao freezer. O desayuno, ou café da manhã é parecido com o Argentino, uma media luna (croassant), meio pão (isto mesmo, meio), uma fatia de torrada murcha e uma fatia de pão de forma. Tinha também uma salada de frutas com banana e mamão. O suco era à vontade, mas tinha uma senhora vigiando quanto você tomava.

Como não vi o Marcelo e o horário de saída estava próximo, bati em sua porta e ele me atendeu com a cara toda amassada. Perdeu a hora. Estamos numa confusão de fuso horário incrível, no Peru a diferença para Brasília era de três horas e aqui é de duas. Combinamos que a partir de amanhã eu vou acordá-los todos os dias, já que não era a primeira vez que ele perdia a hora.

Depois de uma hora estávamos prontos para sair, acertamos a conta do hotel, pedimos para abrir o portão e quando fui ligar minha moto... poc, poc, poc. Estava sem gasolina... Bom, sem querer me justificar, pois numa viagem tanque cheio o tempo todo é uma medida básica, vou retroceder até o dia de ontem para explicar o que aconteceu.

As motos aqui aumentam muito a autonomia por causa da gasolina sem álcool, chegando a mais de 350 km sem abastecer. Saímos de Puno no Peru, onde abastecemos, e passamos por tudo que comentei no post de ontem. Depois de percorrer uma boa distãncia começamos a procurar um posto, mas eles não são muitos por aqui. Quando já estávamos a uns 80 km de La Paz paramos num e o cara que nos atendeu disse que  não tinha nota para atender a estrangeiros. Na hora não entendi aquilo, mas seguimos em direção a La Paz. Como vínhamos do Altiplano e La Paz fica numa altitude mais baixa, começamos a descer infinitamente, o que reduz o consumo das motos. O painel da moto começou a mostrar que a autonomia era de mais de 100 km e tínhamos menos de 40 para rodar. Resolvemos serguir em frente e abastecer na cidade. Chegando lá o trânsito é infernal, com um monte de vãns que parecem ser clandestinas entupindo as ruas e bloqueando a passagem. Como era descida, fomos tranquilos e a autonomia ainda era boa. Passamos por um único posto que estava com uma fila enorme, então decidimos seguir para o hotel e abastecer no dia seguinte.

Bom, depois de tudo isto, a saída era procurar um posto e abastecer. O tal rapaz que passei o sabão mais cedo se ofereceu para ir com o Marcelo até um posto que ficava a duas quadras do hotel. E lá foram eles abastecer a moto do Marcelo e o tanque reserva para minha moto. Eu fiquei esperando, esperando, esperando e depois de uma hora já pensando em procurar a polícia para saber se houve um  acidente com um brasileiro pilotando uma enorme Harley, chega o Marcelo com uma cara de poucos amigos. Antes que eu falasse qualquer coisa ele me disse "Vamos embora logo desta merda de cidade"...

Ele foi ao tal posto a duas quadras, não tinha gasolina e por ter entrado pela saída levou uma dura de um policial. Na cidade as vãns podem tudo, parar no meio da rua, na esquina, buzinar o tempo todo, entrar na contra- mão, mas entrar na saída do posto não pode. De lá ele foi passando por um engarrafamento atrás de outro entrando em um posto, outro, outro, até que chegou em um que tinha gasolina, mas o preço para estrangeiro é quase três vezes o que os locais pagam (9,10 para 3,74 Bolivares). Mas para vender, o posto tem que emitir uma nota especial para recolhimento do tributo, o que dá muito trabalho, fazendo com que os postos não atendam estrangeiros. Resultado, nós temos que ir em três, quatro para sermos atendidos e mesmo assim o posto não emite a tal nota, ele cobra o valor majorado e embolsa a diferença, provavelmente com uma propina para o policial de plantão. Mas como não temos outra opção, estamos pagando e sorrindo para quem nos atende. E é proibido encher tanque reserva, de modo que tivemos que tirar gasolina do tanque da moto do Marcelo para minha moto usando uma mangueira (estou com gosto de gasolina na boca até agora...)

Apesar do Marcelo querer retornar para o Peru, fomos para a estrada depois de uma hora para percorrer uns poucos quilômetros dentro do confuso trânsito de La Paz. Abastecemos novamente e seguimos por uma estrada relativamente boa, mas com aquelas marcas no asfalto deixadas pelas rodas dos caminhões, fazendo as motos rebolarem muito e dando a impressão que os pneus estão vazios. Chegamos a parar numa borracharia para verificar os pneus.

Chegamos em uma cidade chamada Oruro, a maior entre La Paz e Potosí. Era poeira para todo lado. Nenhuma placa indicando nada. Observamos que nenhuma cidade da Bolívia tem placas indicando centro, saídas, rodovias. Para quem está sem GPS, é uma grande dificuldade.

Depois de Oruro percorremos cerca de 75 km e vimos muitos caminhões, ônibus e carros parados na estrada. Era um "Paro", uma manifestação de camponeses pedindo alguma benesse do governo e que costuma durar dias. Diminuímos e fomos passando por eles, pela outra pista, bem devagar. Alguns quilômetros depois chegamos a um grande monte de terra bloqueando a estrada de fora a fora. Um grupo de jovens acenou para a gente, nos dando coragem para contornar o monte por uma passagem de cascalho. Eu parei e falei para o Marcelo que ia tirar uma foto e o grupo se juntou para posar, fazendo a maior festa. Quando olho tâ lá o Marcelo abraçando a turma e fazendo a maior festa com eles...

Eles nos cercaram mas foram amistosos conosco, admirando as motos. Seguimos pela estrada que tinha muitas pessoas por todos os lados e cerca de um quilômetro depois, outra barreira, desta vez de mulheres sentadas em grandes pedras de uma pota a outra da pista. Chegamos perto com as motos e elas fazendo sinal que não nos deixariam passar. Desliguei a moto e fui até elas, argumentei e elas não cederam. Falei que ia tirar uma foto e elas viraram de costas para mim. A situação não estava boa. Até que veio um cara que parecia ter influência e as convenceu a nos deixar passar. Passamos, mas pelas caras elas não gostaram.

Rodamos mais uns 500 metros e outro bloqueio, desta vez de homens de idade. Nova tentativa e disseram que teríamos que contornar por um caminho de terra que tinha próximo. Argumentamos que nossas motos não passavam pela terra. Depois de um tempo e a ajuda de outra pessoa que interveio, conseguimos passar. Mais à frente outro monte de terra, que atravessamos pelo meio. Neste os manifestantes estavam conversando ao lado e não fizeram objeção à nossa passagem.

Seguimos entre os caminhões, ônibus e carros até que chegamos em um ponto que os caminhões ocupavam toda a largura da pista, não dando para passar nem uma pessoa entre eles. Vimos um caminho ao lado da estrada que parecia ser passagem de animais, provavelmente llamas, muito comuns na região. Vendo que era possível descer a encosta de capim baixo, endireitei a moto e desci. Esperei para ver o que o Marcelo ia fazer e ele desceu também, escorregando a moto no capim. Tocamos em frente por mais de um quilômetro até ver que os caminhões já não impediam a passagem. Acelerei e subi a beira da estrada e o Marcelo veio atrás.

Daí em diante a estrada era toda nossa. Percorrendo um enorme vale plano, longas retas, piso bom, conseguimos recuperar o tempo perdido fazendo uns 150 km em pouco mais de uma hora.

Depois começamos a contornar algumas montanhas muito bonitas, reduzindo bastante a velocidade por causa quantidade de curvas fechadas, chegando em Potosí quando o sol mostrava os últimos raios.

Jantamos no restaurante do próprio hotel, eu um prato de trutas com legumes e o Marcelo um de carne de lhama. Uma delícia e muito baratos.

Números do dia:
Distância: 589 km
Total percorrido: 6.077 km
Consumo: 14,112 l
Média de 13,356 km / l
Preço médio: R$ 0,900 / l
Gasto combustível: R$ 12,70
Lanche: R$ 3,48
Hospedagem: R$ 63,49
Jantar: R$ 15,41

Comentários (8)

  1. cicero g silva

ta decidido: vou comprar uma harley e cair na estrada....voces são realmente corajosos, pois eu não tive boas experiencias com os blivianos... sorte

  1. Rômulo Provetti    cicero g silva

Obrigado, Cícero.
Muitas pessoas têm problemas. Continue lendo a nossa história.

  1. Luis Uruguaio

Queridos amigos, grandes garotos!! estou adorando as narrativas de vossas aventuras, vocês são muito corajosos, quando leio as narrativas fico pensando como é bom fazer parte deste núcleo de amigos, falta pouco para nossa pequena viagem e vou querer alugar muito vocês na volta, quero receber todas as dicas possíveis.
Quero desejar a vocês meu amigos tudo de bom nesta aventura fantástica,um abraço e até breve.

  1. mauricio de sousa

MEU DILETOS AMIGOS,
VOCÊS DEMONSTRAM EM CADA RELATO A DESTREZA EM LIDAR COM SITUAÇÕES ADVERSAS. DE MODO QUE SÓ TEMOS QUE CURTIR OS SEUS FEITOS. TIRAR O CHAPÉU E PROCURAR APRENDER - VOCÊS SÃO MESTRES. FAZ E FAZ BEM FEITO.
VOCÊS ESTÃO DE PARABÉNS

  1. Cláudio Fernandes

Estou bastante impressionado com vocês. Só mesmo uma Harley-Davidson para levar alguém a tomar decisão de viajar tanto, correndo até perigo. É simplesmente uma paixão inesplicável. Parabéns, para suas Harleys. Por elas enfrentamos tudo! Logo que puder minha De Luxe vai me levar para uma viagem desta. Quando voltar em vamos conversar a respeito, para uma orientação, se quizerem.
Grande abraço e continuem tendo uma boa viagem com "elas".

  1. Marcelo Guerra

Sem contar com conotação maldosa, não dentro no Peru. Péssimas lembranças de Marcapata. Agora estou buscando arrego no Chile.

  1. Marcelo Sousa

Amigos Rômulo e Marcelo,
Os relatos nos deixam emocionados e apreensivos....tomem cuidado e fiquem atentos.
Grande abraço,
Marcelo Sousa

  1. Jucelino Muniz de Oliveira

Meus amigos, quanta emoção, quanta adrenalina!!!
Material para um livro você ja tem Rômulo. Basta revisar e encardernar!!
Continuem tendo uma ótima viagem.

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