Choveu a noite inteira e o frio foi de rachar em Marcapata, uma pequena cidade no meio dos Andes Peruanos, que tem quase que só uma praça e algumas poucas ruas. Estava frio e muito úmido. Deve ter ficado abaixo de zero. Eu estava com segunda pele e uma roupa por cima, duas meias grossas, luvas e debaixo de três cobertores e não suei, tanto que tive que ir ao banheiro três vezes. Um banheiro fedido e sem luz. Senti dor de cabeça por causa da altitude (pode ter sido por causa do cheiro dos cobertores também). A cama era brincadeira, um colchão molenga estirado sobre um estrada com grandes espaços entre as tábuas.

Acordamos cedo, deixamos a bagagem pronta, fomos a uma venda onde compramos biscoitos e água para o desayuno e umas folhas de coca para o soroche, que experimentamos na garagem da comissaria, onde fomos conversar com o policial e ele nos disse que poderíamos ir buscar a moto e pegar os documentos na volta que eles ainda estavam terminando de fazer o relatório do acidente.

Pegamos minha moto e sob uma chuva fina e fria fomos para a estrada. Não andamos nem um quilômetro e havia uma barreira caída sobre a pista, com muita lama que ainda descia da encosta. Um trator trabalhava para remover, mas parecia que quanto mais lama ele tirava, mais caia. Ficamos aguardando um tempo e como parecia que ia demorar retornamos para Marcapata, onde ficamos aguardando até ver o movimento de caminhões que haviam sido liberados. Retornamos para a estrada e fomos ver como era a passagem. Não dava para passar com uma Harley. Os veículos com tração passavam com muita dificuldade.

Ficamos aguardando eu fui ver o trator que havia voltado a tirar mais lama e depois de um tempo liberou para a passagem dos caminhões. Continuei achando que não dava para nós. Dali a pouco o Marcelo passa na boleia de um caminhão acenando para mim.

Retornei para Marcapata e fiquei esperando. Como demorou muito, voltei para o local do deslizamento e fiquei lá vendo o trabalho do trator. De repente escutei ao longe o ronco característico de uma Harley. Corri para o barrando e vi de longe o Marcelo contornando as muitas curvas e subindo a montanha. Logo depois ele aparece na frente da fila, do outro lado do deslizamento. 

Mais uma vez liberaram para os caminhões e eles passaram com muita dificuldade. Alguns veículos 4X4 passavam tambem, mas com dificuldade. Os automóveis sem tração que tentavam acabavam retornando de um determinado ponto. E a chuva continuava caindo, fraca mas persistente.

De repente vejo o Marcelo ligar a moto e ir em direção à lama. Pensei, "ele não vai tentar..." E lá foi ele... Liguei a câmera e comecei a filmar a aventura do meu amigo, correndo para mais perto (a 3.600 m de altitude). Ele foi, foi, foi e, parou no meio da lama. Comecei a rir da situação, mas ele começou a gritar "Ajuda por favor"... Ninguém se aventurava na lama para ajudar. Neste momento caiu mais um monte de lama na estrada e vi que a coisa era séria. Desliguei a cãmera e corri até ele, afundando minha perna na lama até a metade da canela. A moto estava meio tombada, com a roda traseira girando na lama e o Marcelo fazendo força para mante-la em pé, mas seus pés escorregavam e ele não tinha força suficiente para manter os quase 400 kg da moto na posição. Comecei a puxar, mas nós dois sozinhos não tinhamos força nem o piso dava sustentação para aprumá-la. Até que um motorista de caminhão também veio em nosso socorro e os três conseguimos endireitar a moto. O Marcelo religou o moto, saindo muita fumaça do escapamento em contato com a lama. Ele gritou apóia de lado que eu vou prosseguir. Ele começou a avançar lentamente, a roda lenvantando lama, o motorista nos deixou sozinhos e fomos os dois pelo resto do atoleiro. Vencemos!!! Quatro horas para atravessar 100 metros de estrada. 

Veja no vídeo abaixo uma parte inicial desta cena.

Uma parada para recuperar o fôlego, uma foto para mostrar as pernas cobertas de lama e retomamos a estrada em direção a Marcapata. Pegamos nossa bagagem, colocamos nas motos, devolvemos as chaves dos "apartamentos" e fomos para a comissaria buscar os documentos do Marcelo. Chegando lá os policiais, muito amáveis, pediram para o Marcelo sentar em uma cadeira para eles pegarem o depoimento dele para o relatório. Somente procedimentos administrativos, diziam eles, para se resguardarem de qualquer questionamento futuro da embaixada brasileira (?) e para arquivamento posterior. Foram quase duas para o relatório descrevendo o tombo, o atendimento, uma declaração de que foi tratado com dignidade pelos oficiais, além de acabar a tinta da impressora e vermos um processo de enchimento do cartucho de tinta com uma seringa pelo comissário de polícia.

Neste meio tempo chegou a notícia de que o deslizamento havia aumentado e a estrada fechada em definitivo até a chegada de mais máquinas.

Pelo que já havíamos lido em relatos de outros viajantes, esperávamos ter que fazer alguma contribuição para os policiais, entretanto eles se foram o tempo todo gentis, dando-nos muita atenção e nos liberando no final sem qualquer mordida. Estavam sendo zelosos e cumprindo suas obrigações, que neste caso nos pareceram muito burocráticas.

Enfim, retornamos para a estrada. Continuava chovendo e as curvas se sucediam, cada vez mais difíceis, com grandes montanhas de um lado e precipícios do outro. A região tem um visual maravilhoso, mas não pudemos aproveitar muito porque chovia e ainda estávamos tensos com o acontecimento do dia anterior. Avançávamos lentamente, fazendo curvas a 20, 30 km / h. Passamos por dezenas de curvas que faziam literalmente 180 graus. Seriam apenas 200 km a percorrer, mas que pareciam uma eternidade. Sobe, sobre, desce, sobe, sobe... curva, curva, curva, curva... Grandes e pequenas pedras caídas sobre o asfalto, exigindo atenção e nos fazendo rezar para nenhuma cair em nossa cabeça.

De repente mais um deslizamento interrompendo a estrada, que desta vez parecia ter pegado um caminhão bi-trem enquanto passava. Esperamos um tempo e como não aparecia um trator para ajudar, os motoristas se reuniram, pegaram pás, paus, terra e pedras e começaram a ajudar o caminhão a sair do local. As suas rodas continuavam patinando no asfalto escorregadio, impedindo-o de prosseguir, mas a força coletiva fez com que conseguissem endireitá-lo o suficiente para os outros veículos passarem em uma pequena faixa coberta de lama. Os caminhões foram passando aos poucos, com muita dificuldade, depois os automóveis e eu e o Marcelo combinamos que iríamos atravessar também, um pilotanto e o outro apoiando do lado. Ele foi primeiro, eu correndo do lado, turbinado por umas folhas de coca (Não é que o treco funciona???). No meio do percurso ele sentiu confiança e aumentou a velocidade, passando ileso pela lama. Eu retornei, montei na moto e dançando de um lado para o outro também consegui passar. Mais um obstáculo transposto.

Continuamos atravessando a Cordilheira dos Andes e sentindo muito frio apesar de bem preparados com uma roupa que nos fazia parecer astronautas: segunda pele, roupa, forro térmico, roupa de cordura, duas luvas e botas. Era um frio úmido que penetrava a roupa e nos deixava em dúvida se a roupa estáva molhada ou gelada.

Até este momento a paisagem mesclava grandes montanhas de rocha cobertas com vegetação densa mas baixa. Aí chegamos ao ponto culminante do dia, 4.725 metros de altitude. Paramos para fotografia. Tirar a luva grossa foi um tormento, mesmo mantendo a luva de segunda pele a mão começava a ficar dormente de frio. A sensação térmica era de uns 10 graus negativos. 

Agora começamos a descer, descer, descer, mas as curvas continuavam aparecendo sucessivamente, cada vez mais perigosas e molhadas, várias com 180 graus. A paisagem mudou de mata para grandes vales cobertos com relva baixa. Vimos as primeiras lhamas, que corriam para longe quando parávamos para fotografar.

Foi anoitecendo e ainda faltavam 50 km para Cuzco. Até que depois da cidade de Urcos a chuva parou e começaram a aparecer grandes retas, que nos permitiu desenvolver bem melhor nossa viagem. Os 150 km iniciais foram feitos em 4:30 horas e os 50 finais em menos de 30 minutos.

Chegamos em Cuzco já de noite. Entramos por uma grande avenida onde muitos microônibus, vans e taxis disputavam os passageiros nos pontos e a pista com os outros veículos, nós entre eles. Uma confusão danada, uma buzinação sem motivo, tinha motorista que parecia que buzinava de acordo com o ritmo da sua respiração. E para piorar, os motoristas mudam de faixa e arrancam sem olhar no retrovisor. Procuramos o hotel que havíamos reservado para o dia anterior, a única vez que havíamos feito a reserva antecipada e não usamos porque conseguimos cumprir o cronograma. Foi uma tarefa difícil, pois sem GPS, que não deu mais sinal de vida, não conseguimos encontra-lo.

Fomos para outro hotel, chamado El Puma, onde contratamos para o dia seguinte uma empresa de turismo para nos levar para Machu Picchu. Era um hotel que vimos em um prospecto e que falava que tinha estacionamento e internet. A internet tem, apesar de lenta, mas o estacionamento fica do outro lado da cidade (disseram que ficavam bem próximo). O mensageiro do hotel foi na minha garupa, sem capacete, nos guiando até lá.

Havíamos comido até então apenas biscoistos e água e estávamos esgotados. Fomos para o restaurante do hotel onde o Marcelo comeu um espaguete e eu uma carne deliciosa com molho a base de vinho. Uma delícia aumentada pela fome.

Números do dia:

Distância: 198 km
Total percorrido: 4.828 km
Consumo: 13,431 l
Média de 14,742 km / l
Preço médio: R$ 2,151 / l
Gasto combustível: R$ 28,88
Hospedagem: R$ 68,64
Lanches: R$ 5,00
Jantar: R$ 19,23

Comentários (16)

  1. Michel

Rapaz o trem ta ficando emocionante hein!
Boa Sorte pra vcs!

  1. Herlandes Gadelha

Por pouco não encontro os amigos na estrada para Cusco, pois ficamos no mesmo bloqueio devido ao deslizamento. Também estou em Cusco porém não estou de moto pois estou cumprindo uma promessa para minha esposa de que essa viagem não seria no estilo aventura em duas rodas heheheh... BOA SORTE IRMÃOS ESTRADEIROS!!!

  1. Luis Uruguaio

Meus amigos, vocês são D+, fico imaginando meu Joelho nestas situações, acho que o pior já passou, vamos que vamos.
Abração,
Luis

  1. Laércio

Ehehehehe....quem disse que HD não pode ser off-road?

  1. Daniel Mota

Que europa que nada! Viagem com emoção mesmo é América do Sul! rsrsrs... Abraço e boa sorte!

  1. Marcos de Paula

Rômulo e Marcelo! Estou em dúvida se vocês são loucos ou muito corajosos! Na verdade vocês são Haleyros! Parabéns pela aventura que Deus os guie.

  1. Alvaro Filgueiras

Parabens Romulo e Marcelo, estamos acompanhado e torcendo pelça aventura de voces, isto é gostar de chuva, é só para de chover em BH e tem gente que vai até o Peru´só para pegar uma chuvinha> Boa Sorte

  1. PHD Adrianoad

O sistema é bruto... Nem tem o que falar dessa narrativa, acho que as folhas de coca injetaram uma adrenalina a mais em vocês dois...
Geralmente a gente acostumado com caminhos muito melhores que esses, quando sai para uma viajem de 200 km, nem pensa em levar um dia para cumpri-la...
Em sã consciência a gente pensaria em não ir... Mas desafio é desafio, parabéns pela garra, força amigos!
PHD Adriano AD
Mogi Mirim - SP

  1. mauricio de sousa

Bravos Guerreiros da LUZ. É isso aí. Vão com DEUS. Meus queridos harleyros Romulo e Marcelo - Isto é a proteção do sininho. Li e gostei muito.

  1. Helder

Rômulo e Marcelo,
E S P E T A C U L A A A A A A R !!! A gente fica preocupado com os riscos e feliz com o sucesso da viagem. Estamos aí com vocês, em suas garupas (sem fazer peso). Tenham cuidado e sigam com Deus. Grande abraço.
Helder

  1. Ney

Como sempre os relatos do Rômulo nos empolgam pela clareza e emoções contidas. Isso sim é uma verdadeira aventura. Que Deus continue os acompanhando.
Abraços,
Olney

  1. PEREIRA50905090

Excelente a ideia de fazer este treinamento na lama Peruana, para passar por Itabirito-MG depois das chuvas...., Show de Bola!!! Incrivel o sufoco!!! p a r a b e n s !!! PHD PEREIRA JA

  1. Sergio coan

Vai que e sua tafarel. Show de bola boam viagem

  1. Silvan

Cara, que sufoco, estou com lama até na orelha.
Continuem viajando com o Homem na garupa, porque estamos aqui curtindo a viagem de voces.

  1. Hegler Kelser

Marcelo e Rômulo,
parabéns. Estão dando exemplos de superação. Muitas pessoas realmente se sentiriam desanimadas, no entanto pelo que vejo, vocês levam as transposições como vitórias. É isto aí ... Continuem e que o Bom Deus continue a protegê-los.
Hegler

  1. Cristiano Coutinho

Show de bola!!! Aguardo ansioso os relatos diários!!!
Boa sorte e fique com Deus!!
Abraço

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