O dia amanheceu carregado de nuvens. Não havia breakfast no motelzinho. No quarto ao lado, o meu colega harleyro já tinha saído para Anchorage, a cidade mais populosa do Alaska, ao sul do território. Metódico, ele tinha um paninho pra polir cada pedacinho de sua Harley, que piscava de limpa, apesar da chuva, ou pelo menos assim me pareceu em comparação com a pobre V-Strom. À noite, a Harley dormiu sob uma capa; a V-Strom, na chuva.

Comi um Kit-kat, tomei água e, depois do cerimonial de todo dia com relação às cargas e à moto, abasteci no posto ao lado. Um adolescente mimado me atendeu. Devia ser o filho do dono. Passou o cartão negligentemente e não funcionou. Insisti para tentar novamente, e nada. Tive que abrir o top-case pra pegar uns dólares enfiados lá no fundo, no meu porta-dólares. Contrariado, paguei em cash. Eu evitava de gastar essa grana, porque ainda teria muitas despesas pela frente, sobretudo o transporte da moto de Panamá City para Bogotá, caso não a enviasse de Chicago, situação ainda não claramente definida, mas que naquele momento não me preocupava. Além disso, na América Central e na América do Sul é sempre bom ter uns dólares à mão. Nunca se sabe o que pode acontecer. Em todo caso, esses dólares também estavam ali para isto, ou seja, quando não desse certo abastecer com cartão. E ainda restava a possibilidade de sacar dinheiro em algum ATM, como são chamados os caixas eletrônicos. Mas não gosto de depender disto, pois a experiência já demonstrou que ora dá tudo certo, ora não funciona. Aproveitei para tomar um copão de café e saí satisfeito tomando o rumo da Alaska Highway.

Hoje seria o último trecho, pelo menos na ida, nessa espetacular rodovia. Apenas 330km me separavam de Fairbanks, a dose do dia. Desde Watson Lake, ou mais precisamente desde que cruzei da British Columbia para o Yukon, a Alaska Hwy levava o número 1. Antes, desde Dawson Creek, era a 97. E agora, no Alaska propriamente, ela era a nº 2. A nº 1 é a que leva de Tok a Anchorage. Muitas vezes reparei que as rodovias número 1 nos diversos países podiam corresponder à chamada rodovia Panamericana, que, como sabemos, é uma rede internacional de estradas ligando Ushuaia, na Argentina, a Prudhoe Bay, no Alaska, mas de modo nem sempre identificável como tal. Entretanto, isso (de ser a nº 1) não é uma regra, só uma observação minha. Assim, se fosse por mim, ela continuaria sendo a nº 1 até Prudhoe. No Brasil não tem nada disso, porque a Panamericana na América do Sul passa pela Cordilheira dos Andes, em nada afetando o território brasileiro.

Viagem de moto até o Alaska

Aos poucos, fui me dando conta de estar no Alaska. O que significava isso? Não era possível aferir naquele momento. É uma região ainda hoje tão escassamente povoada, 0,48 hab/ km2, que leva o cognome de A Última Fronteira, ou The Last Frontier. Em menos de 1% dos 375 milhões de acres existe algum sinal de presença humana, como dizia meu guia de viagem. E era nessa última fronteira que eu estava rodando, sobre milhares e milhares de anos de história. Refiro-me especialmente ao fato de que os homens nativos americanos muito provavelmente vieram da Ásia, através do Estreito de Bering, ingressando em solo americano pelo Alaska. Imagina-se que não havia um ser humano sequer em toda América há 40 mil ou há até 12 mil anos, não se sabe bem ao certo. O ser humano, ou o homo sapiens, teria surgido na África, talvez no Kalahari, hoje Angola e Namíbia, há 200 mil anos. Dali teria empreendido a maior viagem de todos os tempos, talvez há uns 70 mil anos, em direção ao norte. Do Oriente Médio, uns viraram à esquerda para a Europa, outros viajaram pela Ásia. O Estreito de Bering, separando Ásia e América, tem apenas 85km de largura, e o mar ali é raso, entre 30 e 50 metros de profundidade. Assim, durante as últimas glaciações ou eras do gelo, é provável que a água do mar tenha se concentrado na calota polar e nas geleiras, expondo o fundo do mar e formando uma ponte entre os continentes. Por ali teriam passado os primeiros americanos, e de lá viajado até a América do Sul. Uma epopéia incrível, da qual se formaram tantas culturas ao longo de milhares de anos e de um vasto território, e tanta diversidade e história. Por um pouco de tudo isto eu estava passando nessa viagem de moto, fazendo-a ao contrário dos primeiros, isto é, de sul a norte. Dentre os primeiros habitantes do Alaska, estavam os que conhecemos como esquimós, que são na verdade os inuits. Viviam ao Norte, para onde eu estava indo, e a Oeste. Para o norte me levaria a Dalton Highway, já para o oeste não há estradas. Gostaria imensamente de poder chegar a Nome, à beira do Mar de Bering, mas isso só é possível por avião. Os meios de transporte no Alaska ainda não são algo bem resolvido. Há muito para desenvolver. Ainda são poucas as estradas ligando as principais cidades. A questão se colocou sobretudo diante da descoberta de ouro no final do século 19 e durante a Segunda Guerra Mundial, quando finalmente foi construída a Alaska Hwy. Mas até hoje Juneau, a capital, não é ligada por estrada alguma, bem como Barrow, no extremo norte, a oeste de Prudhoe. Quando os russos chegaram, em 1741, pela obra do navegador dinamarquês Vitus Bering, a serviço do czar, só havia as trilhas dos caçadores nativos. Quem sabe se eu não estava passando ou cruzando por cima de alguma ... O Alaska, a propósito, de início interessou particularmente à Rússia, pois o ponto extremo a oeste está a apenas 80km daquele país. Quando os russos aprenderam o caminho, vieram para dizimar extensa população de focas e lontras marinhas para o comércio de peles, e tomaram para si o território. Em 1867, a Rússia estava em dificuldades financeiras por conta da Guerra da Criméia (1853-1856), e, além disso, temia perder o Alaska para a Inglaterra, cuja presença já se fazia na British Columbia, costa oeste do Canadá. O Império Russo não se garantia quanto à defesa desse território tão afastado do seu centro de decisões. Assim, poderia perdê-lo sem qualquer indenização. Por isso o Czar Alexandre II resolveu se antecipar e vender o território aos Estados Unidos. Seu embaixador, encarregado da venda, era amigo do Secretário de Estado americano William Seward, e com este fechou o negócio por 7,2 milhões de dólares, ou 5 centavos de dólar por hectare! Os americanos, por seu lado, na época acharam uma loucura, a "loucura de Seward", como ficou conhecida. Mas uns anos depois foi descoberto ouro em Juneau, e depois em Nome, e depois muitos outros minerais, inclusive o petróleo em 1968 no extremo norte, em Prudhoe Bay. Poucos americanos podiam ter imaginado o bom negócio que estava sendo feito, o quão estratégico podia ser o Alaska para os interesses dos EUA. Realmente, naquele tempo disseram que o preço era alto demais, que era uma idéia ridícula, que não havia sentido em adquirir um território sem um povo para preenchê-lo, que a única coisa que poderia haver eram animais que já tinham sido caçados quase à extinção, pouco restando, e que o negócio tinha sido feito na surdina. Atualmente o Alaska tem uns 700.000 habitantes, e o petróleo é a força de sua economia. Tanto dinheiro vem dos royalties, que seus cidadãos não precisam pagar imposto de renda. Aí, V-Strom, de repente é um bom lugar pra gente se encostar. Hoje, soa interessante imaginar o quão próximos estão Rússia e Estados Unidos, ilustrando muito bem o ditado que diz que os "opostos se atraem". O mundo é redondo, e de tão longe, acabaram ficando perto. Agora, enquanto escrevo, ouvimos de novo nos noticiários surgir a Criméia, um pequeno país ao norte do Mar Negro, como ponto de tensão entre as potências. Será que o Putin vai lembrar dessa história de 160 anos atrás sobre Criméia e Alaska? A situação pode ser parecida. Na época, de um lado estava a Rússia, com suas pretensões expansionistas, e de outro o Ocidente, representado por Inglaterra, França e Áustria, contra essas tais pretensões, bem como a Turquia.

Mapa Toronto Fairbanks

Portanto, era sobre tudo isso que eu rodava, agora em direção a Delta Junction, uma cidadezinha onde poderia fazer uma parada. A chuva se tornou intensa. Junho e julho são os meses de mais chuva no Alaska. Ainda bem que saí com minha roupa completa. Mas a viseira embaçava demais, e depois as lentes dos óculos embaçaram também, e não conseguia enxergar nada, nem mesmo um posto de gasolina onde pudesse abastecer na chegada a Delta Junction. Eu vinha acompanhando o Tanana River, e a cidade fica à beira de outro rio, o Delta River, mas nada disso consegui ver. Ia tateando na estrada. Era muita água, só que caindo do céu. Já estava dando raiva. E eu sentia muito frio também. Estava congelando. No dia seguinte sairia para a última perna antes do Oceano Ártico, de modo que essas condições de tempo eram preocupantes, ainda mais considerando que não teria o conforto do asfalto.

No ponto em que a Alaska Hwy encontra a Rodovia nº 4, a Richardson Hwy, está a cidade, de 900 habitantes, e bem ali tem um posto Tesoro. Se tomasse a número 4 ao sul, iria para Valdez, ou poderia reencontrar a rota nº 1 para Anchorage. Como esse não era meu caminho, parei ali mesmo, sob intensa chuva. Estava duro de frio e mal podia descer da moto. Alguém se aproximou e disse: "Mau dia pra sair de casa, hein?!" É, eu não estava com muita sorte, e meu humor também não estava dos melhores. Apeado da moto, fui tirar o capacete e, do nada, me caiu no chão a lente esquerda dos óculos. Fiquei caolho, e a lente que sobrou estava toda embaçada. Foi uma cena ridícula. O posto era do tipo "pague antes e abasteça", e assim eu fiz, mas o que eu queria mesmo era comer alguma coisa antes, e tomar uma bebida quente, melhor, fervendo. Contudo, o restaurante do posto ainda estava fechado. Abastecida a moto, consegui um copo de café bem quente com a atendente do caixa. Colei minhas mãos nele, pra ver se parava de tremer. Ao lado do caixa, na minha frente, tinha um quadro com mais de uma dezena de frases em inglês, do tipo pensamentos. Eu não consigo ler muita coisa, mas uma das frases me chamou a atenção. Dizia:

"LIFE IS NOT A PROBLEM TO BE SOLVED, BUT A GIFT TO BE ENJOYED". A vida não é um problema para ser resolvido, mas um presente para ser apreciado.

Alaska

Uau, era daquilo que eu precisava. Lindo pensamento. Coisa de um mestre, que simplesmente sente, já não precisa pensar. Talvez seja uma síntese de muita coisa. Tá aí, cabeçudo, é assim que tem que ser. Pare de lamentar o frio, a chuva e seus óculos quebrados. Respire e sinta. Perceba a dádiva que está recebendo. Ou preferia estar no seu maldito escritório?

Nisso chegou a pessoa do restaurante e pude comer alguma coisa. Se bem que não tinha muita coisa. E meus lábios estavam congelados; eu não conseguia me fazer entender. Foi o suficiente, entretanto, para ganhar a energia que eu precisava pra seguir adiante.

Não falei muito disso até agora, mas estava usando um GPS nesta segunda etapa da viagem. Era um Nuvi-40 da Garmin, de R$ 300,00, e não um GPS para motos, que custa em torno de R$ 1.500,00. Não era a prova d'água, nem feito para grandes solavancos e vibrações. Mesmo assim, funcionava bem. E eu usava um plástico para cobri-lo quando estava chovendo. A verdade é que o GPS tinha muitos detalhes, mapas excelentes do Canadá e Estados Unidos, incluindo Alaska. Só que, por outro lado, nesses países tudo é muito bem sinalizado, e eu não estava passando por grandes metrópoles, de modo que era também uma coisa na maior parte das vezes inútil. Vez por outra ele me atrapalhava, pois estupidamente me mandava para um lado, quando eu sabia que o melhor caminho era outro. No que mais eu precisava dele nesses dias, que era localizar hotéis, ele não era muito bom. Assim, durante as longas jornadas, ele mais me servia mesmo era como companhia, fornecendo dados como velocidade, velocidade média, o quanto eu já havia percorrido desde o início da viagem, coisas assim. Ajudava a passar o tempo. O melhor recurso, dentre esses, era o de medir a velocidade real. Nos Estados Unidos, a velocidade é medida em milhas por hora. Em princípio, no ano anterior, a primeira vez que deparei com isso, fiquei bem perdido. Havia placas avisando sobre fiscalização aérea de velocidade, placas informando sobre multas, essas coisas, e eu sequer entendia qual verdadeiramente era o limite de velocidade. Com o GPS é fácil, não precisa nem pensar. Quando passamos do limite, a velocidade marcada fica vermelha, e você pode até programar um aviso sonoro. Mas essa não era de fato uma preocupação efetiva por essas lonjuras. Na verdade, pouco me preocupei com isso em toda a viagem de moto, pois não dava pra pensar nisso. Era um risco que eu corria, para poder chegar, embora não tenha abusado dos meus próprios limites. E, afinal de contas, como é esse lance de milhas por hora? Não é difícil. Para obter a velocidade em km/h, basta multiplicar a velocidade em milhas por 1,6. Ou seja, no equivalente em km/h, o valor é sempre 60% a mais que em milhas. Quando estava sem GPS, se, por exemplo, o limite era de 55 milhas/h, eu calculava mentalmente 10%, que é fácil (5,5), e multiplicava por 6, que dava pouco mais de 30. Aí somava os 30 aos 55, dando a idéia de 85, que é o resultado aproximado de 88. Em resumo, não era bom passar de 90 km/h.

Alaska

Enfim, para Fairbanks faltavam 150km. O tempo foi melhorando. Com alguma comida forrando o estômago, parei de sentir frio. Nesta parte do caminho as Harley-Davidson tinham me deixado. A maior parte dos viajantes acredito que segue para Anchorage, porque depois de Tok, para os lados de Fairbanks, não via mais motos e motor-homes. A maioria deve descer a partir de Tok pela Rota 1 até o sul. Imagino que Anchorage seja um lugar mais agitado, e ponto de partida para muitos lugares turísticos. No meu caso, logo depois de Delta Junction, passei pelo Big Delta, que é o encontro dos rios Tanana e Delta. Tem uma ponte bonita para os carros e ao lado uma ponte pênsil que serve a um oleoduto. O oleoduto era novidade para mim, mas logo até me cansaria de vê-lo. Uns 100km depois, fiquei admirado do tamanho da base aérea que encontrei. Era a base de Eielson. Não se pode parar para fotografar. Um pouquinho depois, cheguei ao Pólo Norte! Pelo menos era a cidade chamada North Pole, que fica entre a Base Aérea de Eielson e Fairbanks, a 2.500km do Pólo Norte. Muito simpática, tem boa estrutura, e é, na verdade, um subúrbio de Fairbanks, sendo potencialmente um ótimo lugar para ficar. Como meu objetivo era o centro de Fairbanks, rumei para lá e foi tranqüilo. Muito já devia ter chovido ali, porque as pistas estavam molhadas, mas o tempo estava querendo afirmar, apesar de haver ainda muitas nuvens cinzentas.

Seguindo indicações do GPS, errei um pouco antes de chegar ao Ranch Motel, na South Cushman Street. A Cushman St. é a artéria para o downtown, e, embora o hotel não fosse muito perto, eu poderia ir a pé para o centrinho da cidade. Fui logo atendido com muita gentileza, e o preço eu devia considerar saudável, digamos, pois era de cem dólares redondos, sem qualquer acréscimo. Só que ainda não tinha quarto disponível; estavam limpando. Assim, deixei tudo certo na recepção e coloquei no GPS o endereço da NORTHEN POWER SPORTS, que era a CONCESSIONÁRIA SUZUKI local. A boa notícia é que ficava a menos de 4km do Ranch Motel. Em poucos minutos estava na 1980 Van Horn Rd. A Northen Power é uma loja enorme para uma cidade pequena como aquela, com motos à venda de todos os tipos, inclusive muita motocross. Tinha até V-Strom! Era uma sexta-feira. A loja estava aberta, e era o lugar certo, se quisesse resolver alguns problemas, como o vazamento de óleo. Vazamento de óleo se diz "oil leak" em inglês. Foi ali que aprendi isso. O mais urgente, entretanto, era a própria troca de óleo. A esta altura, já tinha feito quase 7.000km, estando perfeitamente na hora de fazer a troca. Eles tinham o óleo 100% sintético, que era da própria marca Suzuki. Que ótimo! Eu estava tão embalado que até perdi a vontade de resolver o vazamento de óleo. Já tinha me acostumado a ele, e não sentia mais que fosse uma ameaça tão grave à viagem. O que eu queria mesmo era trocar o óleo e seguir ligeiro para Coldfoot e para Prudhoe Bay. Contudo, tinha que perguntar, claro, sobre o vazamento. Eles disseram que abriam no sábado, mas fechavam às segundas-feiras, e que eu poderia voltar com mais tempo quando quisesse para eles analisarem. Portanto, peguei três litros de óleo e prometi voltar na semana seguinte para fazer tudo o que tinha que fazer na moto. Consegui também o parafuso do protetor de corrente, e o instalei ali mesmo em frente à loja, sob chuva novamente. Na volta para o Ranch Motel, abasteci a moto e o galão extra de 10 litros, deixando isso já "ok" para o dia seguinte. Chegando lá, o quarto estava pronto, e pude guardar a moto, ajeitar as coisas. Havia tempo suficiente para tentar contato com Sorocaba, comer, passear um pouco pela cidade e refletir sobre o dia em que chegaria a Prudhoe Bay.

Resolvi antes trocar o óleo do motor. Era só o óleo. O filtro ficaria para a próxima. Como o motor ainda estava um pouco quente, separei as ferramentas e fui logo esgotando o óleo nos meus potes de sorvete, com a moto estacionada em frente ao meu quarto. Não saiu tanto óleo quanto eu imaginava. Mas sabia que estava no nível máximo, pois vinha atento sempre a isso nos últimos milhares de quilômetros. Deixei esgotar bem e fechei o tampão embaixo. Com meu super funil da Cycle World Superstore de Toronto, fui tocando o óleo novo lá pra dentro. Sem a troca do filtro, teriam de ser 2,7 litros, conforme o manual. Completo esse volume, liguei o motor, deixei funcionar um pouco. Tudo bem, nada de vazamentos, pelo menos nada além daquele já conhecido. Depois de uns minutos, medi o nível do óleo e estava bem acima da linha de nível máximo do visor. Que coisa! Tinha acabado de descobrir que na minha V-Strom é assim: quando o óleo está no nível máximo, falta ainda mais de 0,5 litro para estar realmente na quantidade máxima. Portanto, quando lá ainda em Banff eu resolvi esgotar um pouco do óleo para descer à marca do nível máximo, não é que tinha óleo demais, é que o mostrador não é preciso. Não foi culpa sua, Peter! Vim suspeitando de você todos esses dias, então desculpa aí. Agora sei que é o melhor mecânico de motos de Toronto. E eu já tinha a moto há cinco anos, e nunca havia percebido isso a respeito do marcador.

Alaska

Enquanto fazia essa descoberta, um senhor do quarto ao lado, cabelos brancos, se aproximou e veio ver o professor aqui na sua arte. Ele estava louco pra saber tudo daquela cena que presenciava. O tempo já tinha esquentado, o sol castigava o chão de asfalto em que estávamos, e os famosos mosquitos do Alaska estavam mostrando os dentes para mim pela primeira vez. No motel tudo era bem vedado com telas, e a porta do quarto não podia ficar aberta nem por um segundo. Para fazer o serviço tive que usar repelente, que eu já bem avisado trazia na mala. Ele perguntou o que eu estava fazendo, de onde vinha, para onde ia, quantas cilindradas a moto... Ficou lá me olhando, com uma lata de cerveja na mão, vermelho já de tanta bebida, deduzi. Percebi que estava sozinho, que tinha largado a TV pela novidade em frente, e que tinha se interessado por mim e pela moto, querendo conversar. Infelizmente o inglês dele não era dos mais didáticos, mas simpatizei com o senhor simples, humilde, que me desejou boa-sorte, e eu a ele. Aproveitei para esticar a corrente, lubrificar, verificar a pressão nos pneus e trocar o fuzível do GPS, que um pouco antes tinha queimado por causa da água na tomada 12V. Limpei viseira do capacete e retrovisores da moto, ficando assim tudo pronto para o grande dia.

Mais sossegado agora, me pus a pé até o centro de Fairbanks, buscando como sempre um pay phone. Em vão. Na cidade, a 2nd Avenue reúne lojas e restaurantes, sendo um lugar bem agradável. Na esquina com a Cushman St. tem uma lojinha de souvenirs, onde comprei uns cartões postais. Ao lado há uma livraria, com muitos livros de aventura, inclusive as obras de Robert Service, Lynn Schooler e Michio Hoshino. Este último, um fotógrafo da natureza bastante famoso pelo seu trabalho no Alaska, morto tragicamente por um urso grizzly em 1996, na Península de Kamchatka, Rússia. Mais a frente, encontrei na galeria CO-OP PLAZA um ótimo restaurante. Fiz ali excelente refeição, e segui para o Ice Museum, na mesma rua, para conhecer um pouco. É um pequeno museu particular a respeito de belas esculturas no gelo. Há até uma simpática demonstração de como se fazem essas esculturas. Sinceramente, eu estava gostando de Fairbanks, animado por tudo que o dia seguinte me prometia. Tinha consciência dos riscos, das merdas que poderiam acontecer, mas, não sei como, me sentia plenamente confiante.

Alaska

O melhor é que estava feliz, andando a pé pelas ruas da segunda maior cidade do Alaska, e a mais populosa do centro-norte. Dali até o Círculo Polar Ártico são apenas 241km. Era já o solstício de verão, e o dia tinha 24 horas de luz solar. Minha Nossa! Parecia que eu estava em outro planeta. Devido à inclinação do eixo da Terra, e devido ao movimento de translação, sendo naquele hemisfério o auge do verão, o Sol incide mais que em qualquer outra época do ano, tornando os dias muito longos. Já no inverno, em dezembro, ocorre o contrário, e a noite chega a ter 24 horas na região Ártica. Nessa época, Fairbanks se torna um lugar ótimo para se apreciar a aurora boreal, segundo o meu guia. É um fenômeno de camadas espetaculares de luz produzidas no céu por partículas de elétrons e prótons do vento solar. Bem, essa não seria possível de curtir, mas já estava bom o verão para mim. As temperaturas nessa época podem chegar a 32º Celsius. No inverno, a – 15º. A cidade tem por volta de 32.000 habitantes, e é banhada pelo rio Chena, que a gente vê do centro da cidade, formando uma paisagem urbana bem pitoresca. As pessoas brincam no rio com caiaques. Uma pena não ter feito fotos nesse dia. A atmosfera da cidade é a que imaginamos para um lugar remoto, ressalvado que, no fim das contas, é Estados Unidos. A diferença é que não tem a mesma riqueza, é rústico. Havia alguns bêbados perambulando, bem poucos turistas, e se via que o meio de transporte local é mesmo o automóvel, camionetes, carros grandes e uma frota não muito nova. O povo deve beber bastante por lá, porque há várias lojas com muitas prateleiras de bebidas alcoólicas à venda, e é preciso mostrar a identidade para comprar.

Regressando ao hotel, vi uma placa indicando uma loja que era ao mesmo tempo consultório de oftalmologia e óptica. Legal, eu já estava levando os óculos avariados no bolso, e fui até lá para tentar recolocar a lente. Tudo certo, nem quiseram cobrar. Agora só faltava falar em casa. Infelizmente não há telefones públicos em Fairbanks. De novo essa questão. Um pouco antes, no motel, não haviam me permitido usar o telefone da recepção ou o computador. Era estritamente para o serviço. Por que eu não tenho uma porra de um celular? Porque eu realmente não gosto de tecnologia. Sou igualzinho ao casal Sutherland, de Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas. Não gosto, mas não vivo sem ela. Aí está a contradição. Ainda bem que esse lance de tecnologia x sentimentos é apenas uma metáfora na obra de Pirsig. Pessoalmente acredito que ter um celular significa muito mais trabalhar para ele do que ele para mim. Não nos dá sossego. É um gênero de primeira necessidade que nunca foi necessário até menos de vinte anos atrás. Nos últimos tempos é capaz de nos manter conectados a uma rede em que nos tornamos sujeitos passivos de uma parafernália de informações e conteúdos ao gosto e interesse de corporações. Ficamos completamente dependentes e vulneráveis a isso. Muita gente sei que já não é capaz mais de pensar por si, de exercer um juízo crítico sobre tanta porcariada recebida 24 horas por dia. Isso significava o oposto completo da proposta da viagem de moto. Tratava-se de uma expedição de liberdade, se fosse possível. Com um desses aparelhinhos infernais, nem ia parecer que eu estava longe. E simbolizaria segurança demais na aventura. Aventura não é pra ser tão segura assim. Por isso eu não levei um comigo. Não tenho um, na verdade. Mas permanecia a questão de sentir falta do contato com a família.

Em 2008, quando descobrimos uma grave escoliose na minha filha mais velha, parece que isto precipitou uma série de eventos problemáticos que me cobraram voltar toda a atenção para a família. E eu nunca mais fui o mesmo. Nenhum de nós, acho. Era a escoliose idiopática, um problema que afeta a coluna vertebral de 3% das meninas em idade de 10 anos para frente, sendo crítico durante o estirão de crescimento. É mais raro nos meninos. A coluna vai girando no seu próprio eixo e entortando lateralmente, formando nas costas um calombo, a chamada "lomba", que se precipita sobre o pulmão e o coração, comprimindo-os e dificultando a respiração, até um ponto que, se não operada, pode trazer seriíssimas conseqüências na vida adulta, abreviando em muito a existência. E há ainda o problema estético, terrível para qualquer um, principalmente para o jovem adolescente. Há a possibilidade de se enfrentar o problema com o famigerado colete de Milwaukee, mas isso não costuma retornar bons resultados. O escritor Lynn Schooler, que mencionei há pouco, escreve sobre a vida selvagem no Alaska e é autor do Livro "O Urso Azul", que eu li e guardo com carinho na minha estante. Ele tinha, ou tem, o mesmo problema de coluna e usou o colete. Na época dele não havia como fazer a cirurgia. Mas este é o tratamento mais eficaz. Durante um ano e meio, por aí, tentamos a cirurgia pelo Hospital das Clínicas em São Paulo. Longa fila. Longuíssima fila. Acordávamos 3h da manhã e íamos ao hospital na capital. Uma manhã inteira de espera para a consulta, e sempre a resposta era a de que a coluna tinha entortado mais um pouco, e ainda estávamos longe de sermos contemplados com uma data para o procedimento. O custo envolvido era de duzentos mil reais naquele tempo, se fosse o caso de um hospital particular. Só de prótese eram cem mil reais. Cansados, percebendo a coluna já 90º inclinada, pasme, resolvemos cobrar isso do plano de saúde, e, depois de muito nos enrolarem, acabamos conseguindo. Sete horas de cirurgia, o risco de paraplegia, circulação sanguínea extracorpórea, três transfusões de sangue, alguns dias de UTI, e ... tudo, tudo deu muito certo. É o tipo de episódio que muda um pouco nossas perspectivas, nossas posturas diante da vida, as formas de enxergar. A partir de então eu busquei ser um especialista na minha família, um especialista assim mais ao sentido que o Pirsig atribui em seu livro. Então, é por isso também que, quando estou longe, percebo o quanto sou ligado às meninas, o quanto sinto falta delas. Só não deixo que isso se torne uma restrição às potencialidades de qualquer um de nós, transformando-se em algo negativo.

Tudo bem, se não dava pra fazer contato hoje, faria quando pudesse. Eu havia planejado o primeiro passo para Prudhoe Bay indo só até Coldfoot, 409km ao norte de Fairbanks. Estava sob certa influência da viagem do Clodoaldo Turbay Braga, ocorrida exatos 16 anos antes. Ele narra em seu livro que fez primeiramente de Fairbanks a Coldfoot. Depois fez Coldfoot – Prudhoe Bay – Coldfoot. Finalmente fez de Coldfoot a Fairbanks outra vez. Três dias, portanto. Eu já tinha lido relatos e sabia que era possível ir direto de Fairbanks a Prudhoe. Não é moleza, mas é possível. O próprio Clodoaldo tinha feito Coldfoot-Prudhoe-Coldfoot no mesmo dia, rodando 800km numa tacada só com sua DR-800. Se eu fosse direto a Prudhoe Bay/Deadhorse, poderia não viajar no dia seguinte, isto é, dormir duas noites lá, que era o objetivo geográfico primordial da viagem, e voltar no terceiro dia da mesma forma, diretão. Seriam os mesmos três dias, com a vantagem de poder respirar um pouco lá no último pedacinho da América. Pois bem, estava tudo tão no jeito que resolvi fazer isso mesmo. Comprei umas cervejas no posto de gasolina em frente ao Ranch Motel, para tomar enquanto meditava sobre tudo isto. Comprei também água e umas coisinhas calóricas para levar na viagem. Sabia dos poucos pontos de abastecimento, da possibilidade de mau tempo, das estradas de terra, dos animais, das montanhas, do frio, sabia especialmente que era o meu momento, o momento crucial de tudo isso. Se não desse certo, se por qualquer motivo eu perdesse o equilíbrio, sofresse um acidente, a moto caísse por cima de mim me deixando impotente para qualquer reação, se alguma fratura eu tivesse, isto seria o meu fracasso. Tornar-me-ia um perfeito tolo, que sonhou uma bobagem e quebrou a cara, revelando toda a sua limitação e incapacidade. Se houvesse êxito, e eu tinha muita confiança nisso, de tanto que já tinha imaginado e estudado esse momento, seria só alegria.

Para essas ocasiões, há um pensamento lindo atribuído a Pablo Neruda, que é assim:

"MORRE LENTAMENTE QUEM NÃO VIAJA, QUEM NÃO LÊ, QUEM NÃO OUVE MÚSICA, QUEM NÃO ENCONTRA GRAÇA EM SI MESMO ... MORRE LENTAMENTE QUEM SE TORNA ESCRAVO DO HÁBITO, REPETINDO TODOS OS DIAS O MESMO TRAJETO, QUEM NÃO MUDA DE MARCA, NÃO ARRISCA VESTIR UMA NOVA COR, QUEM NÃO CONVERSA COM QUEM NÃO CONHECE. MORRE LENTAMENTE QUEM NÃO VIRA A MESA QUANDO ESTÁ INFELIZ COM SEU TRABALHO OU AMOR, QUEM NÃO ARRISCA O CERTO PELO INCERTO PARA IR ATRÁS DE UM SONHO, QUEM NÃO PERMITE, PELO MENOS UMA VEZ NA VIDA, FUGIR DOS CONSELHOS SENSATOS ..."

Imbuído desse espírito, e sob a luz do sol daquela noite, adormeci. A V-Strom me esperava na porta.

Comentários (2)

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Que maravilha de relato, valeu a espera, também surpreendi-me com o antigo infortúnio da sua filha, que graças a Deus, é passado. Eu todos os dias faço planos para uma viagem dessas, mas sei, que se não meter o pé na estrada, morro em Itu mesmo, sonhando e lastimando a triste sorte. Mas não me prendo aqui, meu espírito voa, e muito longe, quem sabe até onde? Parabéns mais uma vez, e que venha a chegada a Prudhoe Bay e o retorno à patria PT. kkkkkkk

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Obrigado João Elias! Vai viajar, cara, viaja mesmo, de corpo e espírito. É só dar o primeiro passo e sair. O resto vai se ajeitando. Logo falarei sobre o final do percurso no Alaska. Um abraço. Wagner.

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