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Winnipeg

Ate Winnipeg  460kmAcordei cedo, imagina se não. Não havia café da manhã no hotel, o que não chegava a ser uma coisa ruim. Composto novamente para a estrada, encontrei o Steve já junto à sua Super Ténéré, malas prontas, de partida. Nós nos despedimos, eu dei a ele uns adesivos de bandeirinhas do Brasil, e depois dos Take care e Drive safely saímos ao mesmo tempo, cada um em uma direção. O Steve tem uma serenidade incrível. Gostei muito de tê-lo conhecido.

O caminho estava iluminado naquela manhã. Estrada livre, reta, tudo bastante plano, nem dava vontade de parar. Mas eu tinha que comer alguma coisa. E lá pelas tantas resolvi experimentar o Tim Hortons. É aquela coisa do fast-food mesmo, com uns toques de pimenta. As pessoas olhavam minha roupa, a moto, aquela placa estrangeira, ficavam curiosas. Na porta, umas pessoas me pararam para cumprimentar e dizer algo.

Segui pela Trans-Canadá 17. A jornada desse dia era de apenas 500 km. Eu já tinha rodado uns 1.600 km sem passar por algum ponto de interesse turístico. Então conhecer Winnipeg, a capital da Província de Manitoba, seria gratificante. Reservei duas noites.

200 km depois de Ignace precisava abastecer. Como a estrada convidava sempre a seguir, deixei passar algumas oportunidades e, de repente, percebi que o combustível não daria. Estava na altura de Kenora, e fui ciscando aqui e ali. Acabei tomando a direção oposta a Kenora, ao norte para Redditt. Uma estradinha linda, com curvas, lagos e muita natureza. Mas não havia posto nenhum. Talvez pela vontade de me perder por ali, fui seguindo e apostando que em Redditt, propriamente, haveria gasolina. Mas que nada. O único habitante que encontrei nessa bucólica e rural cidadezinha era um cara serrando alguma coisa na garagem. Fiz ele desligar a serra só pra me dizer que não tinha posto ali. Somente em Kenora. Retornando os 30km equivocados, lembrei que talvez o GPS me desse a direção de algum posto. Sim, ele tinha esse recurso. Só o bocó aqui é que não sabia. Tive que entrar em Kenora, uma cidade pequena e bem legal. Lá não tem pobreza, as cidades devem ter um bom planejamento, há uma boa dose de senso estético, de modo que tudo sempre é bonito e convidativo. Abasteci e segui de volta à Rota 17. Se eu tivesse seguido ao norte sempre, por Redditt, talvez pudesse chegar à Baía de Hudson, em cujo lado oeste está o Território Nunavut, um lugar que provoca curiosidade por ser bem remoto.

O viajante inglês Henry Hudson chegou à baía em 1610. Daí o seu nome. A baía dava acesso a vias navegáveis e rotas comerciais, o que lhe garantiu muito dinheiro com o comércio de peles. Assim foi fundada a Hudson's Bay Company, que existe até hoje e domina o comércio de peles. É o que dizia o meu Guia Visual Folha de São Paulo, embora eu não consiga acreditar que ainda haja um comércio de peles. Não sei se aquela estradazinha para Redditt poderia me levar tão longe, mas ainda tenho vontade de andar por ali e ver o que há.

Um pouco depois eu finalmente saía da Província de Ontário e chegava a Manitoba, onde a Trans-Canadá muda de 17 para 1. A paisagem também muda repentinamente. O horizonte se torna ainda mais amplo, a estrada mais reta. Já eram as Grandes Planícies do Canadá.

Chegando à cidade, senti aquele friozinho na barriga, pois estava agora em cidade "grande", com 650.000 habitantes, o que representa, a propósito, quase 60% da população de toda aquela província. É muito mais confortável ficar em cidades pequenas, como Ignace. A estrada, o hotel, o restaurante, o posto de gasolina, tudo ali na mão. Mas em Winnipeg eu já fui me perdendo de cara, logo depois que fiz a foto junto à placa que anunciava a cidade. Eu não tinha referências sobre onde ficar. Tentei me valer das indicações de hotel do GPS, mas ele dava muitos falsos positivos. E a moto começou a ficar muito acelerada na marcha lenta, com 3000 giros, e isso ficava ruim quando parava nos vários semáforos e cruzamentos, porque a primeira marcha não entrava ou então ficava dando trancos.

Resolvi parar numa rua calma, onde o GPS tinha me dito que havia um hotel. Mas na verdade era só uma residência. Tirei as ferramentas pra pegar uma chave de fenda e regular a marcha lenta. Veio passando um rapaz a pé, e perguntei a ele onde poderia haver um hotel. Não entendia bem o que ele dizia, e pedi pra ele mesmo colocar no GPS. Ele pôs o nome da Avenida (P-e-m-b-i-n-a Hwy), e dali segui bem, já com a moto desacelerada. Não encontrei o hotel que ele indicou, mas um outro na mesma via, bem mais caro, porém que me passou sensação de segurança e de que, definitivamente, eu poderia encerrar a jornada daquele dia.

Após regressar da recepção pra pegar a moto e levar pra garagem, percebi um pingo de óleo no chão. Ainda estava fresco e não havia dúvida de que provinha da V-Strom. Caramba, que merda. No estacionamento do hotel, fiquei observando. Os pingos continuaram. Não era grande coisa, mas isso me deixou bem preocupado. Não entendo nada de vazamentos de óleo, e não sabia até onde aquilo poderia ir. Pelo menos por enquanto o nível de óleo no motor ainda estava bom. Mas o que fazer?

Deixei as coisas no quarto do hotel e já fui atrás de uma solução, aproveitando que estava ainda no horário comercial. Não daria obviamente para resolver o problema ali, mas talvez em Fairbanks (Alaska), onde pelos relatos pesquisados eu sabia que muitos motociclistas conseguiam assistência para suas motos. Precisava, entretanto, com urgência de óleo para repor. Usando o computador do hotel, procurei no Google uma loja que vendesse óleo Motul sintético. Em vão. Não encontrei nada. Pedi para me chamarem um táxi, e logo apareceu um, com motorista indiano, óbvio. Ele foi muito atencioso, mas não sabia onde eu poderia encontrar o óleo. Queria me levar a supermercados e lojas de carro, mas eu sabia que não daria certo, porque óleo sintético para moto é sempre mais difícil. Ele ligou para vários colegas taxistas, mas ninguém sabia. Depois de rodarmos um pouco, desisti. Eu estava estressado demais para um problema que nem sabia se era grave ou não. Pedi indicação de um restaurante, e lá pelas cinco da tarde local ele me deixou em um que ele disse ser ótimo. Adivinha: era um restaurante de um compadre dele indiano.

O Canadá é um país de imigrantes. Aos indianos em Winnipeg cabe a parte dos táxis e restaurantes. Esperei alguns minutos para começarem a montar o buffet do jantar, que o almoço já tinha encerrado fazia tempo. Estava cansado e chateado com essa história do óleo. É incrível como é difícil encontrar óleo para moto nos EUA e Canadá. No ano anterior, na cidade americana de Louisville, eu já tinha passado por isso. Nada mais podendo fazer nesse dia a respeito, pedi a minha cerveja. Servido o buffet, chegou um cara grandão, roupa camuflada, cabelo comprido com rabo de cavalo, bandana na testa. Estava com o filho. Fiquei observando e me ocorreu que devia ter moto aquele cara. Provavelmente podia ser um PHD. Enquanto ele fazia o prato dele, pedi licença e perguntei se ele tinha moto. Ele disse que sim. Na mosca! E onde posso encontrar óleo sintético, parara ... parara. Anotei mentalmente umas informações, mas quando ia saindo do restaurante passei pela mesa dele e ele me chamou. Pesquisou no iphone, pela internet, e me passou o endereço certinho, que eu memorizei e anotei quando cheguei no hotel. Ele disse para eu não esquecer que Jesus is my savior and love me. Eu respondi Amém! Era um pouco estranho, mas fiquei grato pelas palavras de apoio. Ele me deu o cartão dele, dizendo que estava indo a Recife em breve, mas não entendi bem a razão. Bem, aí estava. Pra quem não tinha mais muitas chances de resolver a questão naquele dia, até que eu estava me saindo bem.

No dia seguinte fui de GPS buscar o tal óleo sintético. Ficava a 20km cidade. Pude ver a Winnipeg que não é para turistas. Plana, bairros afastados muito bonitos, casas térreas sem muros ou portões, muitos jardins. Ou seja, é muito bela de qualquer forma, mesmo em sua área periférica. A loja de moto era a Headingley Sport Shop, na 5160 Portage Avenue. Essa avenida é na verdade a própria Trans-Canadá 1, no sentido oeste, exatamente a minha proa na continuação da viagem.

Quando cheguei, a loja ainda estava fechada. Já tinha um senhor esperando com uma BMW enorme, daquelas tipo toda carenada, baús enormes, assim meio coisa de véio. Era o John, ou João, como ele disse, pois tinha passado quatro anos vivendo em Recife. Ficamos conversando em português, e ele falava um bocado. Quando a loja abriu, vi que tinha de tudo, inclusive oficina. Pareceu ser um bom ponto de apoio, mas não quis arriscar de tentar solucionar o vazamento. Eu já tinha o endereço de uma oficina Suzuki em Fairbanks. Estava apostando mais nisso. Comprei 1 litro de óleo sintético Kawasaky e continuei conversando com o John, que estava adorando falar português novamente. Ele é missionário da igreja batista e tinha exercido esse ofício em Recife. Gostou muito do povo, da sua solidariedade, mas lembrou de ser uma cidade muito violenta. O John estava revisando sua moto para seguir a Toronto. Quanto à minha rota, ele recomendou que eu passasse pela Cassiar Road, na British Columbia, que disse ser muito bonita. Despedimos e, na estrada, resolvi voltar para buscar mais um litro de óleo. Assim fiquei com 2 litros de reposição e estava por fim habilitado a desfrutar um pouco da cidade de Winnipeg.

Foi um exagero esses 2 litros. Não cheguei a usar nem um inteiro. E o litro que sobrou viajou de volta até o Brasil, sendo que na balsa do Rio Madeira, entre Rio Branco e Porto Velho, é que me desfiz dele entregando-o a um cara numa 125cc.

O que tem de mais legal em Winnipeg, fora o lindo visual do downtown, é o Manitoba Museum of Man and Nature, um espetacular museu que conta muito de toda a história do Canadá, desde a pré-história, passando pelas primeiras nações, até a chegada dos europeus, mostra a fauna e a flora, as ferramentas utilizadas para desbravar o território. Tem um monte de coisas, até a réplica em tamanho natural de um navio do século 17, tudo disposto em ordem cronológica. O que me chamou mais a atenção foram os bichos em exposição, não sei se empalhados, mas apresentados de forma muito real. Logo na entrada tem uma cena montada de caçada aos bisões. Coisa linda. Muito perfeito.

Passeei a pé pelo coração da cidade, o The Forks, que é onde o Rio Assiniboine encontra o Rio Red. Ali nasceu a cidade, do comércio de peles no século 17, mas o lugar já era habitado há 6 mil anos. No Exchange District, mais tarde, tomei umas cervejas num bar legal e voltei para o hotel com uma certa angústia por ter de seguir viagem com o tal vazamento de óleo.

Chequei os e-mails e entre eles tinha um do Joe, de Chicago, sobre o transporte da moto. Nossa, esse cara ainda tava vivo?! Eu já estava viajando e o transporte ainda não estava nada certo. Em todo caso, deixei para responder quando estivesse mais claro se eu voltaria rodando ou não. Na minha mente eu tinha isso como certo, mas agora, com esse tal vazamento ... Mandei e-mail para o mecânico da moto, solicitando orientações.

Comentários (1)

  1. Obeliques

Muito legal, todo dia vou aguardando o próximo capítulo. Parabéns e obrigado por compartilhar essa grande experiência ! A viagem em duas etapas é uma ótima inspiração pra quem só tem 1 mês de férias por ano... Abraços

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