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Charlottesville - Moore

A Marcha para o OesteApós o embarque do Cyro para o Brasil, com todas as gozações a que ele fez juz, até de cadeira de rodas ele andou com uma pilotagem magistral do locutor que vos fala, fiquei em Charlottesville (VA) e, embora muitíssimo bem tratado pela família dele, eu estava impaciente para inventar qualquer coisa. A ideia inicial era o Canadá, mas meu passaporte continuava no consulado canadense em Nova York para obter o visto, sem previsão de retorno.

Pensando um pouco, o que só faço em anos bissextos, lembrei que conhecia um pouco da costa do Pacífico e da costa do Atlântico e quase nada do Centro-Oeste americano. Conversando com o genro do Cyro, o Bob, que além de conhecer profundamente a história de seu país, ajudou-me a definir alguns importantes parâmetros para meu roteiro.

Para isso partimos de 3 premissas:

1 – Fugir ao máximo das grandes Highways, utiliza-las apenas para deslocamentos rápidos sem perder de vista que o veículo é uma motocicleta que adora estradas sinuosas e serras.

2 – História + Geografia, ou seja dar preferência a locais históricos e/ou de aspectos geográficos relevantes.

3 - Flexibilidade total, onde você vai e volta ou vai e não volta ou então nem vai. É mais ou menos como: "Seja lá o que Deus quiser".

E assim foi feito uma espécie de rascunho, em torno das já famosas cervejas artesanais da Virginia. Troquei o pneu dianteiro da Helô, que estava com menos de meia-vida, preparei a tralha e aí veio a parte mais difícil: as despedidas. Momento de muito riso, muita brincadeira mas todos estão emocionados, uma última foto, montar na moto, sair gritando fingindo que vai cair mas só até a esquina, momento em que os olhos tem uma certa dificuldade de enxergar através de algumas lágrimas de saudade e gratidão.

A marcha para o Oeste

Qual o objetivo inicial ? Eu não tinha a menor ideia mas adotei uma tática que rendeu dividendos fantásticos. Eu mentia para mim e para a Helô. Eu conversava com ela e falava que a gente ia rodar uns 250 Km e pronto, fim da viagem. Para início de conversa eu falava em Km mas rodava em milhas, este era o primeiro pulo do gato. No dia seguinte eu chegava perto dela e mandava: "-Que tal mais 200 ou 250 Km hoje ?", e ela nunca recusava o convite. Evitava ao máximo reservar hotéis pois isso criaria uma quase obrigação de alcançar aquele objetivo e não foram poucas as vezes em que me desviei do caminho. Quando nós decidíamos (eu e a Helö) que estava na hora de parar, procurava um McDonalds pedia um chá gelado e usava o WiFi da rede para procurar um hotel dentro do meu orçamento no Booking.com. Umas 2 ou 3 vezes tivemos problemas e fomos para cidades próximas mas na maioria das vezes era tiro e queda.

De qualquer modo, sai de Charlottesville sem saber muito bem para onde ir e no caminho fui amadurecendo a ideia de passar em Moore, no Oklahoma. Não só pela sua localização geográfica mas aceitando o convite que recebi de Dan e da Odete. Como os dois entraram na história ? Bem isso foi idéia de meu grande e fraterno amigo Nando de Cabo Frio (guitarra baixo dos Analfabeatles - os legítimos) falando comigo pelo Nextel (na época funcionava e eu já estava na gringolandia) disse que tinha um casal amigo em Oklahoma e se eu iria passar por perto. Respondi que talvez. Ele então entrou em contato com eles, que pediram meu e-mail, e para minha surpresa recebo um e-mail super gentil com números de telefone, endereço e um convite para passar na casa deles e matar as saudades de um cafezinho brasileiro. Mal sabia eu o que me esperava ! Peguei o atlas, dei uma olhadinha e ví que entre nós e o cafezinho brasileiro só havia 3 estados (West Virginia, Kentucky e Missouri), nada de assustador se eu continuasse com a tática de "fatiar" a verdade. E assim a viagem foi se processando. Pernoites em Beaver (West Virginia), Leytchfield (Kentucky), Benton (Kentucy), West Plains (Missouri), Neosho (Missouri), Chandler (Oklahoma) e finalmente Moore (Oklahoma).

Em Benton (Ky) fiquei em um hotel no centro da pequena cidade e pela manhã, ao arrumar as tralhas na moto, um casal que estava saindo em uma pick-up veio conversar comigo. Ambos muito formais e educados me fizeram uma série de perguntas sobre a viagem e o Brasil (no windshield da Helô tem um adesivo do Gato Cansado com os nomes de Cabo Frio e Brasil). Após um papo rápido ele perguntou-me onde eu iria fazer o desjejum e respondi que no Wafle House (gosto daquela bagunça) ao que ele respondeu que iria me encontrar lá. Fui para lá e nada do casal. Fiz meu pedido e de repente ouço o trovejar de dois big-twin, quando me viro vejo o Mark e a Jan chegando à caráter, ele em uma Road King incrementadíssima e ela num trike, ambos de bandana (capacete não é obrigatório) e todos os adereços que nós adoramos usar. Ao final ele me levou para conhecer a oficina onde faz customizações e restaurações de carros e motos antigos. O cara é um artista, na hora de ir embora ainda me presenteou com duas câmaras descartáveis da Fuji. Trocamos cartões e e-mails e mantemos uma correspondência ativa, seja através do FB, seja través de e-mails.

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E assim, de cidade em cidade, conhecendo um pouco mais do centro oeste americano, a motocicleta servindo de ponto de partida para agradáveis conversas com uma gente acolhedora e paciente com meu English macarrônico, acabo chegando a Moore no Oklahoma, onde uma enorme surpresa me aguardava. Já na chegada a Odete e o Dan me fizeram colocar a moto na garagem me deram uma cerveja super gelada e mostraram o quarto em que eu iria ficar com toalha, sabonete, shampoo em cima da cama, arrumados como se fosse um hotel 5 estrelas. Tentei argumentar mas não teve acordo. Acabei ficando quase 3 semanas com eles me levando para conhecer várias cidades ao redor de Oklahoma City, a maioria delas em território indígena o que me permitiu aprender muito sobre a história americana pois o Dan, além de muito prestativo conhece profundamente a história dos índios americanos, ele mesmo com uma parte de sangue Cheyenne. A Odete, gaúcha e advogada, sempre descobrindo e sugerindo passeios para eu fazer. Notem que eles jamais me viram ou sequer sabiam de minha existência antes do Nando escrever para eles. Quando comentei isso ela na mesma hora falou: "=É amigo do Nando é meu amigo. É irmão do Nando é meu irmão". Coisa de gaúcho mesmo.

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